20 de outubro de 2016

Resenha » O Demonologista, de Andrew Pyper


Em  meados do século XVII, disse John Milton em Paraíso Perdido: "A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar. A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si pode fazer um inferno do céu, e do céu um inferno". Talvez esta citação possa ser a melhor maneira de se resumir a obra que analisaremos hoje: a história de uma mente completamente perdida e perturbada pelos seus próprios demônios.

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David Ullman, professor universitário da Universidade de Columbia, é um pacato cidadão cuja vida resume-se basicamente ao estudo dos conteúdos aplicados em suas aulas, uma vez que seu casamento está indo por água abaixo e a comunicação com sua única filha pré-adolescente, Tess, não esteja nos seus melhores dias; Ullman é um grande conhecedor de assuntos relacionados à Religião, cuja grande especialidade é o estudo d’O Inominável – o Diabo. Na verdade, percebemos que Ullman é um grande fingidor, uma vez que se descreve como uma mentira por ganhar a vida através da propagação de uma palavra na qual não acredita. Para Ullman, ser divino ou profano faz parte de uma linha tênue em que todo ser humano caminha em busca da perfeição; Deus, Diabo, Adão e Eva, não passam de simbologistas divinas criadas pelos humanos. Particularmente fascinado pela obra Paraíso Perdido, de John Milton, Ullman não poderia imaginar que o estudo minucioso de seu livro preferido talvez valesse muito mais do que mil versos bíblicos na hora em que estivesse frente a frente com Aquele que todos temem. O fato é que a mesma obra que o levou à glória também será aquela que o levará à sua queda aos abismos mais profundos da existência humana, que dividem a nossa realidade com a do lado de Lá.


Você acredita em Deus?


Num dia de trabalho como qualquer outro, o professor recebe uma visita inesperada que mudará completamente o curso de sua própria história: um convite, vindo de uma mulher assustadoramente peculiar, para investigar um certo “fenômeno” em Veneza. Um convite que não poderia ser feito para qualquer pessoa, mas sim, para um Demonologista – um especialista em demônios. Tudo pago. Voo executivo. Hotel cinco estrelas. Um endereço. E nenhuma informação a mais.
Após certa relutância, a aceitação... e o primeiro passo para uma jornada sem volta em busca de si mesmo e da parte mais importante de sua vida. Ao chegar em Veneza, uma viagem que soava de início apenas como uma desculpa para tirar férias com sua filha e estreitar os laços com aquilo que mais o representava em vida, David percebe que estava marcado para estar lá – e que a partir daquele momento, nada mais seria como antes. O relógio começou a correr contra seu próprio tempo, e o professor terá apenas alguns dias para solucionar as pistas escondidas entre os versos do Paraíso Perdido ironicamente deixadas pelo Inominável e compreender as raízes desse terrível mistério antes que as Sombras devorem a última chama de luz que o mantém vivo na Terra.

Será David Ullman, um pacífico e acomodado cidadão americano, capaz de manter sua sanidade e renunciar à sua ceticidade para resgatar das Sombras o seu bem mais precioso – o último sopro de vida da sua existência?



❝ O acabamento da obra
É como se minha própria vida fosse assombrada.

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O livro é publicado pela editora DarkSide, uma das maiores referências da atualidade em publicações de terror e fantasia, numa edição de capa dura e marcador de página feito em tecido. Com a escrita envolvente e cautelosa de Andrew Pyper, somos introduzidos na história que se desenrola através de 320 páginas, numa edição que mede 14x21. O trabalho realizado no livro é bem marcante e detalhado, de forma que ter o livro por si só nas mãos já simboliza uma grande experiência até mesmo antes de lê-lo. Dividido em três partes que separam os principais clímaces da obra (Noite Eterna, O Lago em Chamas e Através do Éden), o livro possui 24 capítulos que são bem dispostos e escritos em fonte e tamanho de letras adequados. O livro conta também com um prólogo especial, detalhando a vida e o obra de John Milton, autor inglês do cânone em que a obra se inspira, Paraíso Perdido, datada do século XVII. Repleto por citações, o material é riquíssimo também em ilustrações, ambas relacionadas diretamente com a obra Paraíso Perdido, e dão um tom ainda mais melancólico à obra. A profissional responsável pela tradução é Cláudia Guimarães, que realizou um trabalho excelente, fazendo questão de adicionar várias notas de tradutor no rodapé do livro no decorrer das páginas, demonstrando extremo cuidado e atenção referente a interpretação do leitor, principalmente ao destacar os trechos originais de Paraíso Perdido, quando algumas citações são inseridas no texto.

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A obra foi ganhadora de inúmeros prêmios da literatura, entre eles o prêmio de Melhor Romance do International Thriller Writers Award (2014), em que concorreu com autores consagrados como Stephen King. Foi finalista nos prêmios Shirley Jackson Awards (2013) e Sunburst Award (2014), além de ter sido o livro mais vendido segundo o jornal canadense Globe and Mail. Os direitos do romance já foram adquiridos para o cinema, numa produção que será dirigida por Robert Zemeckis, responsável pela direção de grandes clássicos dos cinemas como De Volta Para o Futuro e Forrest Gump.

Aproveite para assistir ao booktrailer do livro no vídeo abaixo:




❝ Por que você deve ler
Os demônios existem. Não como uma ideia, mas aqui, na Terra, no mundo cotidiano.

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O Demonologista é uma obra que já chega às mãos do leitor com o objetivo de prendê-lo do início ao fim. De forma instigante, narra uma história improvável para os céticos de maneira completamente realista, e brinca com um dos maiores medos da humanidade desde os seus primórdios: o Diabo, a figura suprema na representação da maldade segundo a Igreja. O livro é indicado principalmente para os leitores mais corajosos, até porque coragem é algo que você realmente precisará ter para ir até o final do livro; além disso, a intertextualidade promovida entre a jornada de David Ullman e a obra Paraíso Perdido protagoniza um show à parte, de modo que ambas das histórias se cruzam praticamente o tempo todo, comprometendo a distinção entre o real e o imaginário. Na verdade, durante toda a leitura você irá se perguntar se o que está acontecendo é real, ou se não passa de uma alucinação do protagonista... mas afinal, não é isso mesmo que o Inominável gosta de fazer com os humanos? Controlar suas mentes e alterar sua percepção da realidade.


O Demonologista vai muito além dos clichês e promove um thriller repleto de ação e conflitos internos, de forma que o leitor prende-se à obra tanto pelo seu aspecto psicológico, quanto também pela sua curiosidade acerca do desconhecido que ronda toda a narrativa; a partir do momento em que David parte em sua jornada, sentimos que uma parte de nós se vai com ele, entregando-nos a um mistério do qual é muito tarde para voltar atrás – assim como acontece com o próprio professor Ullman. Tornano-mos cúmplices de seus devaneios, um ocupante do assento de passageiro do seu carro, e a cada momento se torna mais difícil nos separarmos da história e obtermos controle do que está por vir no próximo parágrafo. Pronto para surpreender até os leitores mais atentos, O Demonologista é o início de uma paranóia complexa de que nunca estamos sozinhos, e de que há alguém que conhece nossa história muito mais do que nós mesmos, nos espreitando a cada instante e aguardando cada pequeno indício de falha para agir.



❝ Preste atenção
Não há realidade, e sim versões da realidade.

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O único ponto que eu ressaltaria como digno de atenção é referente à indicação de público, uma vez que as crenças de algumas pessoas ainda as fazem se sentir desconfortáveis perante assuntos como o objeto central do livro – a utilização da figura do Diabo como personificação da maldade e personagem principal – e podem não se sentir tão a vontade com o desenvolvimento da história. O fato é que realmente nem todas as pessoas estão prontas para encarar livros como este a título de doses constantes de aprendizado, independente da figura que fora utilizada em sua linguagem. Um bom exemplo disso está em vários relatos pessoais que posso lhes dar, enquanto lia o livro no transporte público, por exemplo. Algumas pessoas que estavam sentadas ao meu lado chegavam ao nível de mudar de assento ao visualizarem o título do livro que eu estava lendo. Tudo isso por quê? É um grande mistério... os conceitos de "bem" e "mal" ainda estão firmemente distorcidos em nossa sociedade, uma sociedade que está condicionada à padrões seculares impostos por algumas religiões e isto é algo com o qual infelizmente ainda teremos que lidar por um bom tempo.
(FIz um post sobre isso há algum tempo, clique aqui se quiser ser direcionado para o texto “A literatura de horror e seu falso conceito intrínseco de maldade”)

Engraçado mesmo é imaginar quais seriam os pensamentos que rondam a cabeça de pessoas que possuem tanto pavor de um simples nome. Será mesmo que o nome do pai de todos os males é Diabo? Ou será que podemos simplesmente chamá-lo de... humano?




❝ Meu toque pessoal
A guerra contra o paraíso nunca foi travada no inferno, nem na Terra.
O campo de batalha está em todas as mentes humanas.

Esta é uma obra que fala por si mais intensamente do que mil palavras poderiam assim fazer. O enredo lhe trará reflexões profundas a respeito da vida, da morte, da loucura, do pecado e da dualidade que habita a alma humana. Não é a toa que a obra recebeu críticas majestosas de grandes autores do suspense contemporâneo como Jeffery Deaver (O Colecionador de Ossos e da série 007) e Gillian Flynn (Garota Exemplar). Poucos são os autores que conseguem inserir o leitor de cabeça em suas histórias, mas Pyper te faz amigo e confidente de Ullman, de modo que você tenha dificuldades para diferenciar quem está guiando quem nessa jornada – ou quem está perdendo a sua sanidade com mais rapidez. Nos tornamos expectadores também de uma mudança drástica na persona do professor, que aos poucos ganha determinação e uma fúria incontrolável que só será detida quando o mesmo chegar ao seu objetivo – se ele chegar lá a tempo.

O Demonologista, Andrew Pyper books, terror books, livros de terror, livros darksideNão consegui encontrar algo que me desagradasse durante a leitura, pois realmente o estilo do livro combinou muito com meu estilo de leitura, portanto o texto discorreu de forma fluida e veloz. A escrita de Pyper também é muito envolvente, de modo que, apesar do livro conter inúmeras referências à uma obra literária do século XVII, a compreensão da história não fora comprometida por esse distanciamento histórico. A propósito, mais uma salva de palmas para o autor justamente por ter usado o texto de Milton com tamanha sabedoria e intimidade, o que muito provavelmente não seria possível através das mãos de um autor qualquer que não tivesse dedicado muito tempo e estudo à este grande cânone da literatura mundial.

Um enredo assustadoramente fantástico fruto de um trabalho extremamente competente e que surpreende desde as primeiras páginas. O que mais um leitor assombroso pode querer?




❝ Considerações finais
Não me conhecer demonstra vossa ignorância.

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Um livro que me deixou sem fôlego por dias e alterou consideravelmente minha percepção em relação à algumas questões da vida. Se você está procurando um thriller assustador, misterioso e envolvente, não procure mais! Encare agora mesmo o desconhecido, e dê o primeiro passo rumo à resolução dessa terrível profecia, o desfecho de um história que estava marcada para acontecer e que esconde muito mais do que dor e tragédia; esconde um verdadeiro paraíso perdido.

2 comentários:

  1. Muito interessante ler sobre esse livro. Um amigo meu tinha lido, mas as impressões que ele me passou foram completamente opostas das que você passou. Muito bom identificar duas versões tão diferentes, porque fiquei muuuito curiosa com a mensagem que o livro parece trazer.

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  2. Oi Débora!

    Que resenha hiper completa! Adorei! Lá no blog a rafa, nossa colaboradora, que leu e adorou! Tem uma história bem interessante e gostei de vc ter comentado sobre a indicação do público. E tb gostei das fotos.

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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