5 de outubro de 2016

Resenha » Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo


Olá, pequenos morceguinhos! 
A primeira resenha do especial #OutubroNegro2016 é realmente muito especial! Falarei hoje sobre um dos meus livros favoritos, e também um dos maiores responsáveis por me inserir nos prazeres literários, no início da minha adolescência. Considerado um clássico da segunda geração do Romantismo no Brasil (também chamado de mal-do-século), Noite na Taverna é um dos maiores representantes nacionais da literatura gótica, com um texto carregado de muito mistério, simbolismos e decadentismo. Quer descobrir o porquê de Álvares de Azevedo ser considerado um autor com uma das almas mais inquietas de sua época? Então chame a taverneira para encher sua taça de vinho e surpreenda-se com as histórias fantásticas e soturnas narradas em Noite na Taverna!

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Sendo Lord Byron a principal influência para as obras de Álvares de Azevedo, muitas teorias envolvem o processo de escrita de Noite na Taverna e os sentimentos que moveram o autor na construção da obra. Muitos dizem que os relatos presentes no livro foram compilados de outras histórias ouvidas e vividas por Álvares e seus companheiros boêmios; outros ainda afirmam que são apenas histórias criadas pela mente prematuramente perturbada do autor. A verdade é que indiscutivelmente a obra traz linhas fascinantes, capazes de surpreender até mesmo o leitor mais acostumado com histórias sombrias do gênero. Com um lirismo de fazer inveja até mesmo ao próprio Byron, o livro narra uma noite regada à muito vinho em que cinco amigos se reúnem em uma taverna e contam uma aventura que viveram em suas andanças pela vida. Cada um dos cinco amigos narra um conto em especial – todos verídicos, juram os autores - que leva o seu nome no início de cada capítulo; com isso, então, temos Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johann contando seus casos sombrios envolvendo temas como amores não-correspondidos, a morte, o pessimismo, a solidão e a idealização da mulher como figura bela e pura, numa sequência lascivante e misteriosa de acontecimentos que mexem profundamente com a cabeça de qualquer leitor.




❝ O acabamento da obra

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Por ser um livro clássico e amplamente adotado na grade curricular de colégios de todo o país, inúmeras editoras já lançaram a obra, sendo ela em texto integral ou adaptações. A edição que possuo custou apenas R$ 12,90 e é da coleção Saraiva de Bolso, em que o tamanho do livro é reduzido (medindo 10,5 x 17,5), mas o texto integral é preservado. Particularmente não são tão fã de livros de bolso (comprei de bolso por falta de opção mesmo), mas a edição cumpre o que promete e não deixa nada a desejar ao texto original, além de ser bem leve e prática pra levar na bolsa ou ler fora de casa. A edição traz dois livros em um, Noite na Taverna e Macário, outra obra consagrada do autor (que será resenhada em outro momento), possuindo ao todo 147 páginas (somente Noite na Taverna possui 71 páginas). O livro não possui orelhas e as folhas são amarelas, facilitando a leitura. O tamanho da fonte é condizente com uma edição de bolso, portanto, não há muito o que se reclamar a respeito disso. O livro é dividido em 7 capítulos curtos: cinco capítulos narrando as aventuras de cada personagem e dois capítulos que funcionam como prólogo e epílogo - "Uma Noite do Século" e  "Último Beijo de Amor", respectivamente.
Ressalto que ainda sinto falta de uma edição mais completa, talvez com alguns conteúdos extras, pois a maioria das edições que circulam no mercado possuem seu texto alterado ou adaptações para o público juvenil. Alô editoras desse Brasil, queremos Noite na Taverna numa edição à altura de seu valor literário! ♥



❝ Por que você deve ler

A leitura de Noite na Taverna é direcionada especialmente para dois tipos de pessoas: as que já gostam do gênero, e as que são curiosas a respeito de novas histórias.

Um dos pontos mais marcantes da obra são os amores contraditórios criados por Álvares, que são obsessivamente surreais, uma vez que a mulher é colocada como representação única e suprema de pureza e virtude, apesar das orgias com prostitutas serem uma marca registrada das aventuras dos boêmios; as obras ultrarromânticas em si possuem essa eterna dicotomia, em que sempre os dois lados de uma mesma moeda coexistem, mesmo sendo tão extremos. Na representação do Romantismo, quando o homem se apaixona por uma mulher literalmente se embriaga nessa paixão, envolvendo-se de corpo e alma na idealização deste romance – o que sempre me fez pensar numa aproximação muito grande entre os personagens criados pelo autor e personagens sombrios representados pelos seres da noite, os Vampiros. Ao mesmo tempo em que essa obsessão masculina pela figura da mulher pode ser um pouco assustadora em alguns momentos, ainda conseguem aos apreciadores de romance grandes histórias para se recordar.

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A leitura é válida também para se conhecer um pouco mais a respeito da produção literária da época do Ultrarromantismo, período cujas obras certamente foram percursoras de grandes títulos de terror e thriller psicológico que conhecemos na atualidade. O tédio constante, a morbidez, o subjetivismo, a morte tida como fuga e libertação e o saudosismo sempre foram temas presentes no interior humano, e é interessante obter uma percepção de assuntos tão psicológicos através de uma abordagem literária.

É importante lembrar que antes de ser uma história fictícia, Noite na Taverna não deixa de ser um olhar a respeito dos princípios humanos e os instintos que nos regem sob uma perspectiva diferenciada, que confrotam o ser com tudo aquilo que ele não praticaria em sã consciência - mas que não deixa de ficar latente em sua mente dada sua tamanha surrealidade. Visto por uma ótica simplificada, é apenas uma série de contos fantásticos aparentemente sem nada de extraordinário para oferecer ao leitor, pelo contrário; por outro lado, se visto através de um olhar mais aberto e imaginativo, uma intensa jornada pela mente humana e sua constante decadência.



❝ Preste atenção!

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Antes de qualquer coisa, afirmo enfaticamente: Noite na Taverna não será jamais compreendido igualmente por todos os públicos. Até hoje confesso possuir receio em falar que este é um dos meus livros preferidos, pois é complicado explicar para alguém que não está muito acostumado com estilos diferentes de leitura que seu livro favorito trata de temas tão pesados e incompreendidos, como a morte e a solidão. Noite na Taverna é um livro denso, intenso e completamente poético. Uma pessoa pode ler cada conto e fazer o sinal da cruz, outra pode sentir dentro de si o lirismo presente na obra e encarar o texto como uma boa obra poética que é; mas a questão é que nesse caso, nem sempre todas as pessoas estão prontas para esse tipo de literatura. E de qual tipo você está falando, Débora? Justamente essas histórias que contém explícito o desejo de brincar poeticamente com medos ou curiosidades do ser humano. Aos 14 anos, quando li Noite na Taverna pela primeira vez, senti brotar os primeiros raios de poesia no meu ser. Encantei-me instantaneamente pelo modo como Álvares dispunha as palavras no papel e com o lirismo com o qual ele falava sobre temas que as pessoas possuem tanto medo, como a morte, por exemplo. Isso  me soa fascinante. Nas obras do mal-do-século, fica evidente que o pessimismo, a negação, a decadência, o desespero também fazem parte da natureza humana... mas para se compreender isso, é preciso aceitar esses sentimentos como parte de um todo, acolhendo-os e ouvindo o que eles tem a dizer.

Não se enfrenta o monstro do guarda-roupa mantendo a porta do armário fechada. Não se supera um medo fugindo dele. Não se toma conhecimento do desconhecido ignorando-o.
Isso tudo também é você.



❝ Meu toque pessoal

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Sem dúvidas esta é uma obra excêntrica que representa perfeitamente os aspectos mais importantes da literatura gótica mundial: o amor idealizado, a morte como elemento básico da vida, o desespero, a fuga da realidade, a introspecção. De forma singular, Álvares abre sua mente repleta por histórias surpreendentes para que as mesmas sejam descobertas pelo público e o inspire a descobrir o que existe de mais imaginativo e surreal dentro dele. Ao falar de assuntos como morte e a idealização do amor, o autor não está descrevendo-os em seu aspecto cru, no sentido literal da palavra; está querendo ir além e tentar fazer brotar no leitor justamente esse interesse pelo oculto e pelo desconhecido. Também é utilizada muitas simbologias que retraram pedaços claros da nossa realidade, como por exemplo, ao ser explorada tão intensamente a figura do Diabo nas páginas do livro; o Diabo dos escritores ultrarromânticos nem sempre tem o mesmo significado da figura idealizada pelo Cristianismo, mas sim, pode representar a personificação do mal presente na sociedade, que se materializa através dos atos humanos. Talvez um dos aspectos mais interessantes da obra a serem analisados seja a eterna dualidade em que transita o homem através do bem e do mal, o divino e o profano, a felicidade e a cólera. Sempre estaremos caminhando através dessa linha tênue. Como o mesmo homem que ama uma mulher com todo o seu ser, no aspecto mais puro da palavra, pode ser capaz de se desvincular dessa pureza cometendo um assassinato? O que leva um boêmio que tem tudo na vida se perder no ópio? Até que nível pode ir a loucura do ser humano, e quais são as principais causas dela?

São questionamentos como esses dão o tom da obra, que é um perfeito retrato de quão sombria e degradante pode ser a mente do homem: uma mente perturbada exclusivamente... por ele mesmo.



❝ Considerações finais

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Assustadoramente real e fascinante, Noite na Taverna é uma antologia para ser lida em minutos, cujo conteúdo continuará latente na mente do leitor por muito tempo, seja pela sua profundidade, loucura, ou conceitos psicológicos implícitos em cada história. Cinco estrelas especiais para a obra responsável por me fazer descobrir que um livro pode te levar para lugares que você jamais pensaria em visitar em vida - mas que no final das contas, você acaba até gostando. Para os corajosos, deliciosamente perturbador!

Um comentário:

  1. Oi, Débora, tô seguindo seu blog.

    Confesso que já ouvi falar desse autor, de sua morte tão precoce, aos vinte anos, mas nunca me interessei em ler nada dele. Depois dessa meticulosa resenha, vou dar uma chance p/ ele, rsrs. Volto a postar outro comentário aqui dizendo o que achei. Não se avexe. não, rsrs.

    Um desafio: posta resenha de algum conto do Edgar Allan Poe que eu não tenha lido, rsrs? Vai ser difícil, mas o desafio está lançado.

    Um abraço e sucesso para teu blog.

    http://robertocamilotti.blogspot.com

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