28 de setembro de 2016

Livro ou Filme » Clube da Luta


Preciso falar 2 coisas principais antes de iniciar a análise de hoje:

1ª - Eu NÃO deveria estar falando sobre o Clube da Luta.
2ª - Esta definitivamente NÃO será uma tarefa fácil!

Com uma maestria singular e um jogo interpretativo encontrado em poucas obras no mercado, a história contada no filme/livro Clube da Luta não faz parte de um plot que encontramos por aí com facilidade, e pode facilmente ser confundida com outros gêneros. Saiba que se você não parar para analisar essa história incomum com muita, muita calma, correrá o risco de perder um dos enredos mais surpreendentes e psicológicos de todos os tempos. Você se considera pronto? Então escolha seu grupo de apoio e viaje comigo agora através dos significados ocultos da obra Clube da Luta!




❝ O enredo da história
Somos uma geração sem peso nenhum na história.

Temos aqui um narrador sem nome, carregando consigo uma vida aparentemente sem graça nenhuma. O cenário é composto por noites de insônia e uma imensa insatisfação pessoal e profissional pelos rumos que sua vida tomou. Um escravo. Um prisioneiro. Um instrumento para o mundo capitalista exercer sua dominação. É exatamente assim que conseguimos encarar a realidade do protagonista da trama.

Toda essa rotina pacata muda radicalmente no dia em que ele encontra Tyler Durden, um sujeito completamente oposto de si em termos de personalidade, dotado de muita agressividade, atitude e ambição. Depois de conversas e devaneios, Tyler convence o narrador de que ele é tudo o que falta em sua vida, e que ambos podem unir-se para criar algo grande e revolucionário. Do encontro dos dois nasce uma parceria que se torna responsável pela criação de um grupo extremamente peculiar: o Clube da Luta, um lugar onde homens se reunem para... lutarem uns nos outros. O que aparentemente pode soar como um enredo de pura violência gratuita na verdade esconde uma profunda mensagem - a necessidade de escapismo e transformação pessoal - que só fará sentido se você permitir-se olhar o filme/livro por esse ângulo. Não é uma obra para muitos, muito menos entrará com facilidade e leveza em sua cabeça; O Clube da Luta é uma organização que, antes de buscar sanar os desejos do corpo, busca sanar os desejos do espírito. É a representação de uma luta constante por algo que nem nós sabemos o que é – mas que definitivamente não é isto que estamos vivendo. É você colocar pra fora todos esses sentimentos loucos que vivem dentro de si de uma maneira verdadeiramente efetiva, e quase libertadora. Clube da Luta é uma excelente oportunidade de se desvincular os padrões e lutar por algo verdadeiramente real em nossas vidas.


Por ora, este pode soar como um roteiro extremista, mas com o tempo você percebe que cada tomada do filme ou cada página do livro está querendo desesperadamente dizer algo à você, seja a respeito das atitudes que você está tomando em sua vida, ou seja a respeito do quanto a realidade pode ser diferente. Ao analisarmos Clube da Luta de perto, percebemos nitidamente que cada homem que se juntou ao grupo e que luta ferozmente em cada noite específica não está lutando contra outro homem, mas sim, contra um inimigo interior. Cada homem presente no Clube da Luta está lutando contra si mesmo e contra o sistema que o mantém aprisionado.




❝ Visão geral
Esta é a sua vida, e ela se acaba a cada minuto.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1996 (nos Estados Unidos) e escrito por Chuck Palahniuk. Surpreendentemente a obra fez muito sucesso no Brasil e caiu com facilidade no gosto popular, se tornando um livro clássico e cult. É interessante mencionar que Palahniuk não é lá um cidadão americano comum e possui uma escrita muito peculiar, que ora mira o perturbador, ora o insano. Seus livros não são para qualquer público, e uma prova disso se encontra exatamente nas pessoas que não conseguem ler Clube da Luta de jeito nenhum. Por aqui, ganha vida através da editora LeYa, que hoje é a atual detentora dos direitos do autor e que costuma fazer um trabalho excelente em relação às edições do autor. Uma continuação da obra foi lançada em 2016, em formato de HQ.

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O DVD (à esquerda), o livro (à direita) e sua continuação em HQ (no centro).

Por sua vez, o filme foi lançado em 1999 e dirigido por David Fincher. Assim que chegou às salas de cinema causou muito alvoroço, pois não agradou nem os expectadores, nem satisfez completamente os executivos do estúdio da 20th Century Fox. Algumas das declarações incluiam que o filme era  "de mal gosto" e que não deveria ser exibido daquela forma. As bilheterias foram fracas, as críticas foram inúmeras e o filme já era considerado um fracasso prematuro. A obra só voltou ao mercado e alcançou sucesso após ter sido lançada em DVD, tornando-se até mesmo uma referência cult da atualidade! parece que o jogo virou, não é mesmo?
Com um orçamento de US$ 63.000,00, a produção arrecadou uma receita de US$ 101.000,00 e foi indicada ao Oscar no ano de 2000, na categoria Melhor Edição de Som (perdendo a estatueta para o filme Matrix). Um fato interessante a ser destacado é que após o lançamento do filme inúmeros Clubes da Luta clandestinos foram denunciados à polícia dos Estados Unidos, sendo em sua maioria grupos de adolescentes que filmavam lutas frenéticas realizadas entre os membros do grupo e as colocavam na internet. Há também o registro de casos mais graves, em que o filme foi a inspiração de alguns relatos de vandalismo que aconteceram no mesmo país, sendo uma das ocorrências mais frequentes a explosão de bombas caseiras em estabelecimentos públicos. Talvez seja por estes e outros motivos que a obra acabou se tornando um pouco marginalizada com o passar dos anos – apesar de ainda conquistar a curiosidade e admiração de pessoas do mundo todo.

Assista abaixo o trailer do filme:





❝ Fidelidade da adaptação
Não quero morrer sem ter cicatrizes.

Sabe aquela cara torta que a gente faz sempre que pensa num livro adaptado para um filme, ou aquele frio na barriga que sentimos toda vez que lemos o anúncio de que um livro que gostamos muito irá virar uma obra cinematográfica? Pois bem, esqueça todas essas sensações e respire aliviado, pois no caso de Clube da Luta, essa decepção certamente não acontece. O filme soa como um complemento ao livro, uma vez que temos a chance de visualizar um pouco mais de perto tudo o que acontece nas páginas; além disso, como os elementos utilizados por Palahniuk para expor todas as suas metáforas indiscutivelmente estão ligados às lutas, é interessante poder ver isso a cores, toda essa "selvageria" propriamente dita acontecendo diante dos olhos. Você sente o que cada homem estava sentindo naquele momento com mais vivacidade, facilitando assim a compreensão de suas próprias frustrações. O contraste entre Tyler Durden e o narrador também fica mais evidente, uma vez que as atuações de Brad Pitt e Edward Norton são impecáveis, transparecendo fidelidade à cada personalidade retratada no livro. Assistir os dois se relacionando é realmente incrível, pois a cada nova fala você apenas tem mais certeza do quanto ambos são extremamente diferentes. "O que os atraiu para o outro então?" – você pode perguntar. Bem, amigos... a resposta para essa questão pode estar mais perto do que vocês imaginam.


Não há como dizer que o filme foi cem por cento fiel ao livro, primeiro porque isso é intelectualmente impossível e segundo pois ainda devemos respeitar a liberdade criativa que cada diretor tem ao iniciar uma produção (o que não é necessariamente uma coisa ruim, se esse diretor for competente e souber o que está fazendo). E se há uma palavra com a qual podemos definir David Fincher, o diretor do filme, certamente seria esta; Fincher é extremamente competente no que faz, e você irá perceber isso com mais intensidade ao conhecer os outros trabalhos do cara, como em Seven: Os Sete Crimes Capitais (também com Brad Pitt no elenco), Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, O Curioso Caso de Benjamin Button (Brad Pitt mandou outro olá)  e o mais recente Garota Exemplar. Ponto positivo para o filme, uma vez que nós sabemos o quanto é difícil encontrar um filme que seja adaptado à altura da obra que inspirou sua criação. O filme Clube da Luta não decepciona, muito pelo contrário, instiga e faz com que o expectador sinta de perto toda a energia que emana desse clássico tão revolucionário. As diferenças que podemos notar entre a obra literária e a cinematográfica são poucas, mas sejamos justos, elas existem. Talvez a mais notória delas seja a respeito do final do filme, que é bem diferente do final do livro. Mesmo sendo uma diferença significativa, ainda não considero este fato determinante para ofuscar singularidade das obras. Portanto, o vencedor da vez é o filme, que além de se manter fiel à obra original na maioria das vezes, consegue transpor o livro para uma realidade mais palpável sem interferir no enredo original.




❝ A emoção
Sem dor, sem sacrifício, nós não teríamos nada.

Bem difícil definir. Comecei do "jeito certo", lendo o livro (o que recomendo você fazer também, caso não tenha vivido nenhuma das duas experiências), e o texto é sensacional. Você se sente um pouco perdido no começo tentando descobrir o que está acontecendo e quem é o narrador, mas com o passar das páginas você percebe que essa perturbação inicial era realmente necessária para te inserir no contexto com um todo de uma forma mais intensa; no mais, o texto é bem construído e consegue atingir em cheio o seu psicológico, de tão bom que é. A leitura é super rápida, pois você não consegue desgrudar das páginas. No filme, o mesmo acontece e você se sente atraído pelo enredo e pelos próximos acontecimentos. Talvez ele contenha mais ação, uma vez que as cenas da lutas são bem interpretadas e dão mais realidade ainda à história lida. Como ambos dos roteiros estão bem escritos, fica muito difícil de escolher qual agrada mais ou qual foi construído de um modo mais estruturado. Mesmo amando o filme e sentindo uma realidade muito grande ao assistí-lo, por opção pessoal irei votar como minha obra preferida o livro, uma vez que gostei mais das formas como as coisas foram se desenrolando no livro. Nas partes finais, onde há muitas revelações, lembro que fiquei completamente pasmada lendo o livro, e ao assistir o filme fiquei tipo “hmm, mas que loucura, hein”. Por mais que já tenha lido o livro antes de ver o filme, acho que minha expressão não seria muito diferente, mesmo se não tivesse lido. O livro conseguiu me prender mais aos detalhes, digamos, o que fez minha experiência final ser um pouco mais completa.





❝ Reconhecimento
Vocês não são especiais. Vocês não são um belo ou único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria orgânica em decomposição como todo mundo.

Talvez nem o próprio Chuck Palahniuk tenha imaginado as proporções que sua obra tomaria... ou talvez ele nem desejasse que isso acontecesse; que uma obra com um quê de anarquista virasse essa moda mainstream de hoje em dia. Não dá pra saber o que se passou na cabeça dele, mas podemos fazer uma ideia do que se passa na cabeça do resto do mundo: Clube da Luta se tornou um verdadeiro influenciador direto de pessoas, seja para o mal (como nos eventos de vandalismo já destacados anteriormente) ou seja para o bem (abrindo a mente de pessoas a respeito de assuntos como consumismo, capitalismo, autocontrole, insatisfação pessoal, etc.), e tanto o livro quanto o filme possuem sua parcela nisto. Talvez o filme possua certa vantagem na questão da propagação dos ideais da obra por ser um veículo mais acessível, uma vez que são incontáveis as vezes que nos deparamos com o DVD à venda em pontos comerciais especializados ou na internet, ou então sendo exibido em algum canal de filmes por aí. Nem sempre os livros conseguem chegar às mãos das pessoas que consomem filmes diariamente, justamente por não ser uma fonte imediata de conhecimento – é preciso dedicação e concentração para ler um livro, e nem todo mundo está disposto a pagar o preço. Se formos olhar para o passado, constataremos que o filme demorou um pouco para fazer sucesso; já o livro, obteve sucesso mais instantâneo. Ter nomes como Brad Pitt, Edward Norton e Helena Bonham-Carter no elenco também funcionou como um imã de curiosos e admiradores de longa data do trabalho desses artistas, atraindo ainda mais olhares para o longa. Com isso, podemos entender que ambas das obras possuíram ampla divulgação e atingiram determinados públicos, mas o filme ainda conseguiu consagrar de vez Clube da Luta como ícone da cultura pop.





❝ Conclusão
Perder todas as esperanças era libertador.

O filme é bom, os efeitos são bons, a ação é boa, mas um livro é um livro, né minha gente? Apesar disso, acho que essa foi a comparação que mais me deixou com dúvidas, pois eu realmente adoro o filme e o considero talvez até a melhor adaptação que já assisti, mas ainda assim, a escrita de Palahniuk é uma coisa sensacional. O cara é único, de verdade. Nunca tinha lido nada parecido (e acho que nem haverá na Terra alguém que escreva do mesmo modo que Palahniuk faz e puxo saco mesmo), por isso creio que minha experiência tenha sido tão intensa. Como já disse lá no começo, o filme para mim é um complemento do livro, onde você pode ver com mais detalhes a coisa toda acontecendo e se aprofundar mais na história, mas a essência principal definitivamente mora no livro. E que o mundo faça mais loucos como Chuck Palahniuk... pois são eles que são verdadeiramente capazes de nos apresentarem o mundo como ele é, e de nos ajudarem a nos transformarmos no que queremos ser. Você pode não saber quem é... mas definitivamente, não é quem você é hoje.

You don’t ask questions.
No excuses. No lies.
You have to trust Tyler.

4 comentários:

  1. Oi Débora!

    Eu não li o livro e nem vi o filme, ainda, pq de fato é um clássico cult hiper comentado. Não sou muito de fazer comparações entre livros e filmes, mas fico feliz que o longa seja bom. De fato, agora fiquei com vontade de conferir!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  2. Oiii Debora

    Primeira vez visitando o seu cantinho, amei de paixãao, vc tem um super bom gosto. Parabéns!
    Olha, sobre Clube da Luta vou te ser honesta, prefiro o filme ao livro. Não è exatamente o tipo de história que eu amo e que me prende, então nesse caso acho que um filme mais rápido vai melhor pra mim. Mas quando a história é o do meu estilo, eu geralmente prefiro ler o livro e depois quem sabe conferir a adaptação.
    Já sigo seu blog e quando puder te convido a visitar o meu

    Beijokas

    unbloglitteraire.blogspot.com.ar

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  3. Nossa flor. Nunca me imaginei lendo esse estilo de livro, nem muito menos assistindo esse tipo de filme. Mas agora não vai ter como..rsrs
    Você acordou uma curiosidade aqui em mim!
    Adorei flor!! Beijos!!!

    www.lendo1bomlivro.com.br
    Instagram :) @lendo1bomlivro

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  4. Adorei sua opinião sobre o filme e o livro.
    Já li e assisti, achei super interessante.
    Art of life and books.

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