28 de julho de 2016

Resenha » Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, de Joachim Meyerhoff


Dizem por aí que famílias são todas iguais; Sejam grandes ou pequenas, unidas ou distantes, liberais ou tradicionais, todas possuem os mesmos problemas e contradições – o que as diferencia é o modo como escondem das outras pessoas suas próprias loucuras. Se você ainda não está completamente convencido e gostaria de ter mais uma prova a respeito dessa afirmação, está mais do que recomendada a leitura do livro que estrela nossa resenha de hoje, Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, que lhe dará um panorama único a respeito de quantos fatos surpreendentes podem estar vivendo por trás das paredes de um lar perfeito. Esse título grande esconde uma dolorosa verdade da vida do próprio protagonista, que conta de modo sincero a história incomum de toda sua vida familiar, resumida em 352 páginas de muita emoção e sensatez.


Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, Editora Valentina, Joachim Meyerhoff

Já na capa do livro somos surpreendidos por um questionamento um tanto que intrigante: a loucura está do lado de dentro ou de fora? Isso tudo porque Joachim, quem nos acompanha por todo o livro narrando sua curiosa história, mora com os pais e os irmãos numa casa que ocupa o mesmo terreno de um hospital psiquiátrico para crianças e adolescentes. Hermann, pai de Joachim, é diretor desse hospital e responsável por manter tudo em ordem do lado de lá – nem que para isso precise levar um pouco da loucura de seus pacientes para dentro de sua casa. Com isso, o narrador mostra-se extremamente acostumado em conviver com pessoas portadoras das mais diversas deficiências intelectuais e transtornos psicológicos, podendo até mesmo citá-los como as maiores amizades que já tivera em sua vida. Dia a dia, Joachim passa por alguma experiência diferente que faz questão de nos contar, mostrando o quanto a loucura pode ser uma questão de ponto de vista, ou então, pode estar presente em nós de uma maneira muito intensa do que conseguimos sentir. Certamente esse não é um cenário dos mais habituais, mas conforme vamos lendo a história, acabamos nós mesmos caindo nesse universo e incluindo-nos como mais um membro da família – ou até mesmo como mais um paciente do hospital. Quem é capaz de nos dizer em qual ala nos encaixaríamos melhor? O fato é que, de modo natural, somos inseridos numa história que cativará pela sua sinceridade e remanescerá em nossa memória por muito tempo.




❝ O acabamento da obra
Ficava me perguntando por que justamente aquilo que mais se deseja no mundo causa um medo tão atroz...

Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, Editora Valentina, Joachim Meyerhoff

O livro é escrito por Joachim Meyerhoff e a publicação em português ficou por conta da editora Valentina, que fez um trabalho impecável em questão de acabamento. Falando primeiramente da capa, simplesmente adorei a arte realizada, desde a fonte utilizada no título até a curiosa imagem que ilustra a capa e a combinação das cores utilizadas. Como vocês já sabem, eu sou uma leitora que involuntariamente é atraída primeiramente pela capa, e desde a primeira vez que vi a desse livro já gostei muito e achei que tem tudo a ver com a vibe do livro em si. As folhas são amarelas e nem tão grossinhas, distribuídas em 352 páginas e medindo 14x21. O livro também possui orelhas, e no geral, possui acabamento impecável. Também destaco que não encontrei nenhum erro na revisão da obra, e a leitura fluiu de forma bem natural, sem dificuldades referente ao tamanho da letra ou fonte.




❝ Por que você deve ler
Olhei-me no espelho, só com muita água fria consegui lavar do rosto minha expressão de ódio. Perguntei-me de onde tinha saído aquele segundo rosto e se talvez fosse meu verdadeiro. Será que aquela era a primeira vez que eu me via de fato?

Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, Editora Valentina, Joachim Meyerhoff

Você deve ler esse livro pois cada página traz uma experiência magnífica vivida por Joachim que poderá mudar sua visão a respeito de muita coisa no mundo. Primeiramente, a questão principal do livro obviamente remete aos chamados “loucos”, as pessoas que são internadas em hospitais psiquiátricos. Estou eu devolvendo toda a sanidade desses doentes? De forma alguma. Mas é bem interessante ter a chance de ler um pouco mais sobre o tema, que por ora sofre tanto preconceito, ou até mesmo, repúdio. Quantas são as pessoas que sentem repulsa (mesmo que silenciosamente) ao deparar-se com alguma pessoa nessas condições? Você já parou pra pensar em como seria ter a experiência de ter como vizinhos centenas de pessoas assim? Que baita experiência de vida teríamos aqui, não é mesmo? A pergunta principal do livro nos faz refletir a respeito do que consideramos loucura, ou qual seria o parâmetro que usamos para classificar uma pessoa como louca ou normal. Um atestado médico para muitos pode ser suficiente, mas a verdade é que todos nós carregamos dentro de nós traumas de infância, situações mal-resolvidas, sentimentos reprimidos ou ignorados, que quando guardados por muito tempo, podem nos transformar em seres tão loucos e maníacos quanto aqueles que foram diagnosticados com alguma patologia mental desde a infância. O ser humano é um copo d’água em constante ebulição, em que cada nova gota adicionada pode ser fatal e o suficiente para causar um transbordamento.

Conforme você vai avançando as páginas, vai sentindo como se o castelo de areia perfeito que você construiu no decorrer do livro fosse desmoronando, e que todas as verdades sobre todas as pessoas fossem aparecendo. Confesso que é um tanto frustrante ver isso acontecendo, mas na real, é assim que as coisas são. E é nesse momento que você vai se apegando ainda mais aos doentes mentais que são pacientes do hospital, pois ao menos eles sempre mostraram suas loucuras sem medos ou máscaras. Eles sempre foram quem eram. Já outras pessoas, as consideradas “normais e sãs”, são as mais profissionais na arte de dissimular, e às vezes, criar vidas e personalidades que na real, não existem. A verdade é que o livro narrado por Joachim é mais uma tentativa fracassada dele voltar a ter aquilo que ele nunca teve. Voltar a ter uma vida, que na realidade, nunca existiu.




❝ Preste atenção!
Eu gostava das coisas que meu pai tinha no consultório. Mas fotos de família, tal como eu já vira nos consultórios de outros médicos, meu pai não tinha.

Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, Editora Valentina, Joachim Meyerhoff

Talvez meu maior conselho possa ser referente ao que mencionei acima, de você se envolver demais com a história da família e idealizá-la. Na verdade, não é nem uma questão de que você não deve fazer isso com o livro – mas sim com a vida, com todas as famílias do mundo. Não há como haver família perfeita, muito menos uma vida perfeita. Então sabe aquele seu vizinho que leva a família para passear todos os domingos e aquela sua vizinha que encontra outra vizinha e ambas comentam na fila do supermercado o quanto suas vidas são fantásticas e como tudo está indo bem? Todos eles estão mentindo. Não que suas vidas não possam estar boas, mas... Apenas não acredite de primeira que ali habita um lar perfeitamente feliz. Tem algumas pessoas que a gente olha e nos fazem pensar: “poxa vida, mas que vida bacana você tem, cara!”, e às vezes até nos fazem pensar que queríamos estar vivendo na pele daquela pessoa, mas esse é um pensamento injusto. A gente não sabe o que se passa por trás daquele sorriso e daquelas novidades a respeito da última viagem da família. O fato é que todo mundo tem os seus problemas, e eles representam algo que nem sempre iremos conhecer. Então hoje minha dica é: preste atenção ao modo como você olha a vida das outras pessoas. Por trás de uma casa rodeada por cerquinhas brancas, pode habitar o maior inferno já vivido por alguém. Não deseje ser outro alguém, nem alimente grandes devaneios de terceiros a respeito de suas vidas perfeitas. Isso pode valer até mesmo a respeito dessa geração vida perfeita de Facebook que vivemos atualmente... Não se deixe iludir com as mentiras dos outros. Viva feliz onde você está, com a família que você tem e tudo mais. Cada um sabe da sua própria loucura – e é muito mais fácil lidar com aquela que a gente já conhece.




❝ Meu toque pessoal

Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, Editora Valentina, Joachim Meyerhoff

Esse foi um livro bom demais, com uma escrita que me encantou pela objetividade e honestidade. E quantas risadas me tirou também, principalmente em momentos que a família de Joachim se relacionava diretamente com os pacientes do hospital... minhanossanãoacredito, como ler esse livro foi uma experiência gostosa, apesar de forte! Há momentos até que você dá risada, mas não sabe se essa foi realmente a intenção do autor (te arrancar um sorriso naquela hora ou não), mas você ri mesmo assim, de tão tragicômica que a história é. Ao mesmo tempo, é uma profunda reflexão acerca do comportamento humano e de suas próprias relações. De qualquer maneira, a obra toda em si é uma experiência que possui certa leveza e doçura no início, mas que vai ganhando determinado peso com o passar das páginas, se transformando em uma dor deveras aguda que necessitamos sentir para finalizarmos a história com sensação de dever cumprido. Por outro lado, também desperta um questionamento um tanto quanto interessante: Será que as pessoas verdadeiramente loucas são aquelas que estão internadas em hospitais psiquiátricos, ou aquelas que simulam diariamente estar em perfeita saúde mental, mas que estão desmoronando por dentro, a beira de um ataque de nervos iminente? Ou será ainda que somos todos loucos mesmo? Bem, essa é uma das diversas perguntas que ficam flutuando em nossa mente após a leitura do livro, e que nos instiga a pensar melhor a respeito de uma porção de coisas. O fato é que essa história me surpreendeu bastante, pois de modo simples (não há um climáx ou algum fato extraordinário durante a narrativa, apenas descrições de episódios da vida do protagonista e sua relação com o cotidiano do hospital) conseguiu me transmitir muitas mensagens e me proporcionou uma agradável leitura, mesmo após o livro ter ganhado certo tom melancólico ao seu final. São páginas que te fazem rir, te emocionam e te fazem refletir... o que mais um bom leitor pode querer da vida?




❝ Considerações finais

Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi, Editora Valentina, Joachim Meyerhoff

Merecidas 5 estrelas para uma obra de excelente qualidade, tanto em seu aspecto literário quanto social, e que certamente te conquistará também. Aconchegue-se no cobertor com durante um tarde fria e nublada, e aproveite esse clima bucólico para descobrir um pouco mais sobre si mesmo e sobre as pessoas que convivem na mesma casa com você, numa história que prova a teoria de que, em diferentes níveis, todo mundo carrega um pouquinho de loucura dentro de si – e é justamente isso que faz de nós, seres humanos!

8 comentários:

  1. Parece ser um livro bem interessante! Vai entrar pra minha wishlist :)

    Anna,
    www.jeitodeumaadolescente.blogspot.com

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  2. Oi Débora!!

    Achei a resenha tão completa <3 Parabéns! Viver perto da loucura deve ser no mínimo interessante e o livro parece trazer boas reflexões. Gostei de saber um pouco mais. As fotos ficaram lindas!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  3. Parece ser bem interessante esse livro Débora! Adorei a resenha, sua opinião e essa capa maravilhosa! Já está na minha lista! Beijos flor!! =*

    www.lendo1bomlivro.com.br
    Instagram :) @lendo1bomlivro

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  4. Adorei a sua resenha Débora!
    Nunca tinha lido esse livro, mas adoro os livros da editora Valentina.
    E suas colocações sobre a obra me incentivaram a ler.
    Beijos,
    http://www.fabulonica.com/

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  5. Meu deus !! Mil parabéns por essa resenha ela está ótima !! O livro parece ser exatamente muito bom vou até anotar o nome para começar a ler em breve hahaha
    beijos
    wonderbookss.blogspot.com.br

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  6. Olá, tudo bem? Adorei sua forma de resenhar, bem explicadinha e detalhada! Não conhecia o livro, mas parece ser uma estória muito bom!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  7. Olá Débora
    Tinha começado a ler o livro e deixei na lista de espera.
    Depois de ler sua resenha eu me encantei e cá estou eu com ele outra vez em mãos, agora fazendo amizade com os personagens e refletindo sobre o mundo.
    Parabéns pela excelente resenha!
    Obrigada por compartilhar.
    VC me incentivou a ler📕
    Você deveria escrever um livro tem o dom de "escreviver" em letras mágicas.
    Bjs Luli
    https://cafecomleituranarede.blogspot.com.br

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  8. Oi, Débora!
    Sua resenha está maravilhosa! PARABÉNS! ;)
    Eu já tinha lido algo sobre esse livro e agora estou ainda mais ansiosa para lê-lo. Relacionamentos familiares sempre despertaram a minha curiosidade e esse livro em especial, por envolver uma certa dose de loucura.
    Espero ter a oportunidade de fazer essa leitura muito em breve.

    Um beijo,
    http://helendutra.com/

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