6 de dezembro de 2016

Textos parceiros » (In) Cômoda (Clara Andrade)

Este texto parceiro está disponível também no blog da autora, Penso, logo sou pensador. Visite!




Arthur lançava o seu olhar mais desanimador para o seu quarto. Não que isso fosse desanimar o quarto, mas até as mobílias pareciam sem ânimo para serem inanimadas. Quantos livros, discos, itens, objetos... tudo aparentemente normal e propositalmente um pouco fora do lugar. Quem olhava aquilo apenas via objetos comuns à muitas pessoas, mas Arthur infelizmente via mais. Engraçado como é possível depositar em objetos valores sentimentais e até culpas! Que culpa o coitado do CD tem? Muitas, pois Arthur culpou o CD por muitas coisas. É tão tranquilizante quando por um momento achamos que transferimos nossa responsabilidade pelas coisas que nos acontecem a alguém ou algo, que não seja a gente. Ufa! Que alívio!

O CD culpado nada falava, nada fazia, apenas ficava inerte, esperando alguma força agir sobre ele. Nem é possível dizer que ele esperava algo, muito menos isso. Ele apenas era. E enquanto isso Arthur pensava se jogaria fora aquele CD ou não. Se jogasse o CD fora, também teria que jogar as roupas, os livros, os discos e muitos outros itens. Qual seria o critério? Isso era trabalhoso demais, então decidiu que encarar tudo aquilo com desânimo era menos trabalhoso do que decidir quais coisas manter consigo. Então se sentou em um canto menos bagunçado da cama e encarou novamente objeto por objeto. Ao encarar cada objeto, foi se lembrando da culpa que havia concedido a cada um deles.

Àquele filme foi concedida a culpa da felicidade, que em outro momento se tornou melancolia. Melancolia por se lembrar de uma felicidade que não existe mais ou que até mesmo não se é possível dizer se existiu ou até quando durou. Arthur sentira raiva, ódio, proferira palavras violentas aos ventos e às pessoas acerca de sua ira, mas com o tempo (ah! - o tempo!) percebera que aquilo tudo era em vão. Passou. Não se lamenta o fato de se ter caído. Já caiu. Agora é observar o machucado e passar remédio ou não. É como tomar vacina. As pessoas em geral não gostam de tomar vacina. Sofrem por antecipação, sofrem durante, mas não há sofrimento depois. Porque não há porque lamentar a vacina que já tomou, uma vez que a dor passou. O que resta não é a dor, é o dolorido, é a melancolia. E era dolorido que Arthur ficava ao observar todas aquelas coisas e todas as lembranças que elas traziam. E depois de agir como uma criança pirracenta, ele descobriu que de nada adiantava todo aquele alvoroço, todas as palavras de ira, toda a demonstração de raiva e dor. A única pessoa que sente exatamente aquilo que você sente, é você mesmo. Você gritar sua dor para os outros não fará que eles também sintam sua dor. Ainda bem!

Quando mais Arthur olhava, mais lembrava e mais dolorido ficava. Então percebeu que tudo é perspectiva e escolha. Ele estava escolhendo lançar aquele olhar às coisas, mas e se optasse por um novo olhar? O CD era bem bacana, as roupas também e nada mais eram além de CD e roupa. Quantos valores atribuímos às coisas e às pessoas!

(...)

Já com o sorriso no rosto, Arthur arrumou seu quarto. Colocou cada coisa no lugar. Isso mesmo! E a medida que ia colocando as coisas no lugar, também arrumava seus pensamentos e seus sentimentos. Cada coisa em seu devido espaço, em sua devida hora. Até porque a hora de antes não é a hora de agora e nem será a hora de daqui a pouco...

Arthur aprendeu também que só se arruma a bagunça quando ela te incomoda. A bagunça dele, a bagunça das coisas, pensamentos e sentimentos, só foi arrumada porque gerou um incômodo e o incômodo gera mudança. E a mudança gera incômodo! Lidar com o incômodo provocado pela mudança que foi provocada pelo incômodo já é outra história... e até lá talvez Arthur tenha bagunçado seu quarto de novo, com a desculpa de não ter tempo para ajeitar as suas coisas.

Ah... o tempo!

Enquanto Arthur procrastina, o tempo segue constante, assim como o ponto segue reticente. E vamos aprendendo (ou não!) a colocar as coisas no seu devido lugar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo seu interesse e disposição em comentar a postagem do blog!

Espero que tenha gostado de sua visita.
Volte sempre! :-)