11 de dezembro de 2016

Resenha » Clube da Luta 2, de Chuck Palahniuk


Se em Clube da Luta a gente não podia falar nada sobre as reuniões secretas, em Clube da Luta 2 o objetivo parece ser outro completamente diferente: falar o mais alto possível sobre o clube. Isso porque o retorno de uma das obras mais importantes da cultura pop tem algo muito importante para nos dizer e que não pode mais esperar para ser descoberto; muito mais do que um simples livro, este é um verdadeiro desabafo sem eufemismos de um protagonista que está cansado de sempre assumir a posição de coadjuvante. E se você acha que este protagonista é Tyler Durden, meu amigo (a)... você está errado!


Alguns amigos imaginários nunca vão embora.

Dez anos após os acontecimentos originais de Clube da Luta, entramos na vida de Sebastian, esposo de Marla Singer e pai de Júnior, um menino de 9 anos tão incomum quanto o pai. A vida do narrador de Fight Club não melhorou muito de lá pra cá – na verdade, apenas decaiu. Apesar das constantes visitas ao terapeuta e uma vasta medicação controlada receitada para curar seus "desvios psicológicos", Sebastian ainda não consegue lidar com a incontrolável presença de seu mentor Tyler Durden, rendendo-se mais uma vez aos seus planos obscuros. Seus devaneios se tornam ainda mais perigosos com a volta do Project Mayhem e seus novos planos muito mais destrutivos, que colocam em risco sua própria vida, a vida daqueles que ele ama e até mesmo a existência da espécie humana! Logo, mais uma vez, ele se torna marionete de sua própria sombra numa desgastante tentativa contra o tempo de identificar o que é real, daquilo que sua própria mente inventa - antes que ela acabe com ele de vez.

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❝ O acabamento da obra

O livro é publicado pela editora LeYa, responsável também pela publicação do primeiro volume de Clube da Luta, há 4 anos. Lançada em 2016, a edição vem no formato de graphic novel e surpreende desde o início pela ousadia, uma vez que não era esperada uma continuação do livro neste formato. Ao todo são 280 páginas impressas em papel couché fosco, no maior estilo dos quadrinhos; um fato interessante sobre a obra é que aqui no Brasil ela chegou para nós em forma de volume único, mas sua publicação original nos Estados Unidos se deu através de 10 fascículos pela Dark Horse Comics (ainda bem que podemos aproveitar a obra de forma integral, né?). Esses fascículos para nós se tornaram então capítulos, que unem todas as páginas em uma mesma obra. A arte da graphic novel é simplesmente sensacional, de forma que tudo está em harmonia – desde os pequenos detalhes gráficos que se misturam aos diálogos dos quadrinhos até o estilo rascunhado do ilustrador em consideração ao trabalho ácido e cru de Chuck Palahniuk. Não há erros de gramática ou diagramação, e eu só não posso dizer que a obra está impecável pois certamente o autor, sua equipe e a editora ainda conseguirão nos surpreender um pouco mais no futuro com o lançamento de outras criações tão magníficas quanto esta.

É de fato uma edição pra fã nenhum colocar defeito!



❝ Por que você deve ler

Você deve ler Clube da Luta 2 simplesmente porque ele EXISTE.
Eu não recomendo a leitura para quem não leu o primeiro volume da série, pois se até quem leu o primeiro livro precisa ler o segundo umas três vezes para conseguir absorver tudo, quem dirá alguém que nem sabe direito do que a história se trata. Tenha calma, compre primeiro o livro número um, e depois volte aqui com sua graphic novel na mão pra gente prosear com mais clareza. Agora, se você já leu o primeiro volume e está bem acostumado com o estilo de Palahniuk, siga sua leitura por aqui que com certeza nos entenderemos bem e este livro entrará para sua lista de desejos.

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A obra Clube da Luta – tanto o primeiro volume quanto o segundo – é uma caixinha de surpresas por si só. Quanto mais você abre, mais se espanta e encontra coisas que nem sabia que poderiam sair de lá. São desde críticas sociais pesadíssimas até o confronto interior com as próprias emoções, além da convivência com aquela velha pergunta que ecoa na cabeça após a leitura de obras do autor: "MAS QUE #@*&% ESTOU FAZENDO DA MINHA VIDA?". Clube da Luta 2 ainda preserva as profundas críticas sociais, mas adiciona ainda algumas explicações importantes a respeito do primeiro livro e inclui algumas revelações angustiantes. O tempo passou e é realmente muito bizarro termos uma visão tão simplista do futuro do narrador – casado com Marla, pai de uma criança, fazendo terapia – mas ao mesmo tempo, em coexistência com Tyler Durden. Após a constatação de que, apesar de nova, a realidade do autor permanece a mesma, você começa a pensar em inúmeras questões existenciais, pois se mesmo depois de tantos anos a vida de Sebastian conseguiu ficar pior do que já era (e olha que já era uma porcaria)... quem saberá o que acontecerá conosco e com nossos fantasmas? Qual é a chance que temos de vencer esse sistema, vencer nossa própria chance? E é aí que você entra naquela paranoia doida que só Palahniuk consegue te colocar. Deixar sua cabeça em total mindfuck. Ah, leitores... e se tem uma palavra que pode definir esse livro, é definitivamente esta: mindfuck.

Falando em Chuck Palahniuk, preciso contar pra vocês que o cara atingiu o limite da audácia e inseriu a si mesmo na história em forma de personagem! Sim, vamos ter o próprio autor contracenando com suas próprias criações em um dos casos mais históricos de Deus ex machina que já existiu, nunca materializado antes em forma de livro. Se ele conseguiu atingir seu objetivo, não importa; a questão aqui é unicamente pessoal, entre nós e ele. Palahniuk desceu dos céus para poder finalmente gritar tudo aquilo que ficou guardado em sua garganta por todos esses anos, e que nenhuma outra pessoa poderia jogar na cara do leitor com tanta sagacidade e acidez. Nenhuma outra - nem mesmo sua magnum opus: o próprio Tyler Durden.



❝ Preste atenção!

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Preste atenção para não ficar maluco, isso sim!
Apesar de representar mais um atestado puro e simples da genialidade de Palahniuk, seja cauteloso em sua leitura. Não subestime esta já mencionada genialidade. Estamos falando de um dos escritores mais perturbados de todos os tempos, portanto não vá pegar a obra com o pensamento de "aaaaah, uma graphic novel, vou ler em dois minutos", porque se você fizer isso vai ficar todo bugado (a) e ainda não aproveitará quase nada. Esta é uma obra muito minimalista, e você percebe isso até mesmo nos detalhes mais sutis; não é porque o enredo não vem em forma de romance que seu entendimento será mais simplificado. Estamos falando de Chuck Palahniuk, ora essa! Portanto, vá com calma nas teorias de que graphic novel é um gênero mais fácil de ser lido, porque neste caso, ainda é uma viagem bem louca. Tem alguns momentos em que você até pensa que o autor perdeu a razão e escreveu seus quadrinhos sob efeito de alucinógenos, mas com o passar das páginas e o término do livro se aproximando, você perceberá que absolutamente tudo fez sentido esse tempo todo.
Ou melhor... que nunca, fez sentido algum.
Nem fará.



❝ Meu toque pessoal

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Que Clube da Luta é um dos meus livros preferidos e que Chuck Palahniuk é um dos melhores autores EVEEEER no meu humilde conceito, eu não preciso nem falar – por mais que quando eu fale, receba aqueles olhares espantados de "como assim que com essa sua cara de menininha fofa seu autor preferido não é Nicholas Sparks e seu livro favorito não é Um Amor para Recordar??" ¬¬

Confesso que, mesmo sabendo o que esperar de Chuck, ainda me surpreendi e muito com sua mente sendo exposta e dissecada mais uma vez em mais uma história totalmente fora do comum – mas completamente possível e atual. Você imagina algo e ele te dá uma coisa completamente diferente, que você precisa de dias para digerir... essa é a rotina de um fã do autor. Preciso dizer que amei Clube da Luta 2 não somente por ele tentar mostrar uma nova face de Tyler Durden – suas origens, quem realmente é, o que o alimenta, há quanto tempo acompanha o protagonista e por quê, etc. – mas principalmente também por ele tentar mostrar uma face desconhecida do próprio autor, como ser humano, feito de carne e osso como nós. Ter Palahniuk como um personagem não foi somente bizarro, mas principalmente libertador, pois finalmente pudemos ter a certeza que tudo isso foi criado por um homem com suas próprias vontades e desejos. Muitas vezes criamos tanta expectativa a respeito de uma obra que retiramos do autor uma das coisas mais importantes que ele possa preservar consigo, que é sua liberdade criativa. As pessoas criam teorias sobre Tyler, especulam sobre o narrador, idealizam Marla Singer, mas nunca pararam para escutar o que Chuck Palahniuk teria para dizer e seus reais objetivos ao criar a obra. Afinal, Clube da Luta foi criado para ser uma espécie de manifesto anárquico interno e pessoal do autor contra o capitalismo e a hipocrisia social, mas hoje em dia se tornou símbolo da cultura mainstream e seu clube está na boca de todos os jovens pelo mundo inteiro. Estão criando clubes de verdade e socando-se uns aos outros em garagens. Estão cometendo atos de vandalismo cidade afora. Será que era realmente, realmente era isso que Chuck Palahniuk queria passar para nós?

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Clube da Luta 2 é um grande tapa na cara dos seus próprios leitores, representando uma das críticas mais profundas já realizadas do autor: a inversão dos papéis do herói e do vilão e a idolatria pelo estigma Tyler Durden. Antes, era só o narrador que queria ser como Tyler Durden. Hoje, somos milhões de Tylers, tatuando sabões em barra no corpo. Isso nada mais é do que a confirmação de que nós, leitores, somos e seremos sempre criaturas corruptíveis, egoístas e influenciáveis... e a obra é a mais artística confirmação de que nós não absorvemos absolutamente uma única letra sequer dita ou escrita por Chuck Palahniuk.



❝ Considerações finais

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Uma obra que ganha o leitor pela sua ferocidade e audácia, fazendo-o se sentir vivo ao mesmo tempo em que o deixa fora de qualquer contexto existencial aceitável. Apesar da obra ser fantástica, cada linha escrita e cada novo balãozinho de fala só nos traz uma única e lamentável verdade: a real mensagem do autor não foi compreendida com sucesso, e é isso que Palahniuk desabafa para nós.  Isso não aconteceu em 2012, com Clube da Luta. Isso não aconteceu em 2016, com Clube de Luta 2. E nem nunca acontecerá.

Porque somos o que somos e o que sempre seremos: "a mesma matéria orgânica podre, como todo mundo."

3 comentários:

  1. Oi!! Parabéns pela resenha, confesso que fiquei meio perdida porque não conhecia nada sobre o livro e nem li o primeiro volume. Vou pesquisar mais. Bjos ♥️

    Click Literário 

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  2. Oi Débora, eu nunca li nenhum dos livros sabia? Já vi gente comentando sobre a história, mas até agora não tinha encontrado ninguém falando com tanta paixão. Preciso conferir a obra!
    Beijos
    Quanto Mais Livros Melhor

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  3. Déb, ainda não li... Mas fiquei super curiosa por causa da sua opinião e a premissa dessa história é ótima!
    Ahh, e as fotos?!!? Perfeição né?! Amei tudo... Beijos!!

    www.lendo1bomlivro.com.br
    @lendo1bomlivro

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