31 de outubro de 2016

Resenha » Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson


O que você faria se fosse o último homem da Terra?

Para Robert Neville, esta é uma realidade. Diante de um cenário pós-apocalíptico no qual a sociedade fora acometida por uma cruel pandemia que transformou todos - menos ele - em vampiros, o último sobrevivente tenta seguir com o restante de seus dias e manter viva sua esperança na dissolução desse terrível pesadelo.

Encerramos agora o #OutubroNegro2016 com a certeza de que as portas do Outro Lado foram fechadas com chave de ouro, representado por um livro que nos perturba pela sua melancolia e nos enclausura dentro de nós mesmos, oferecendo-nos como companhia apenas nossos maiores medos. Com vocês, a análise de um dos maiores cânones da literatura gótica mundial: Eu Sou a Lenda.


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Se este enredo lhe pareceu fantasioso demais, saiba que as coisas não estão tão longe assim de uma hipotética realidade. A rotina do sobrevivente Robert Neville é basicamente acordar, reforçar a segurança de sua casa, embriagar-se, buscar por suprimentos, retornar para casa antes do entardecer, embriagar-se novamente e tentar dormir acalentado pelo ópio em meio a gritos desesperados e batidas em sua porta, de criaturas convidando-o para a morte. Lá fora, estão seres humanos acometidos por uma pandemia a qual transformou todos em vampiros - todos, menos Neville. Após ter perdido esposa e filha para o reino das criaturas famintas, só lhe resta conviver com essa torturante realidade, estudando as razões para essa pandemia ter acontecido, procurando diariamente meios de manter sua sanidade e tentando não enlouquecer abraçado pela sua solidão e eterna desesperança. Em meio à pequenos lampejos de vida em tanta morbidez, a pacata vida de Neville se transforma quando ele avista outra forma humana, viva, assim como ele. Ora, talvez, ele não esteja tão sozinho quanto pensava... será esta sua última chance de restaurar a fé de que seu pesadelo terá um fim, ou ainda, finalmente descobrir o que está acontecendo?



❝ O acabamento da obra
"Sai, Neville!"

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O livro tem a autoria de Richard Matheson, um escritor, contista e roteirista, além de ser um dos colaboradores da aclamada série de televisão Além da Imaginação, que narrava histórias de ficção científica, terror, suspense e fantasia. Publicado originalmente em 1954 e com reedição maravilhosamente revista e ampliada pela editora Aleph em 2015, a obra possui capa dura e conta com 384 páginas divididas em 4 partes, representando quatro datas diferentes nas quais a história se desenrola (janeiro de 1976, março de 1976, junho de 1978 e janeiro de 1979), além de contar com o prefácio de Stephen King e extras especiais: uma crítica do livro (interessantíssima, aliás) e uma entrevista com o autor. Aliás, já percebemos que esta é uma obra de peso quando ela vem acompanhada de um prefácio de ninguém menos que o Rei do Terror, Stephen King. E QUE PREFÁCIO!
O trabalho da editora foi exímio e contou com todas as qualificações que sempre ressalto em livros de qualidade: folhas grossas e amarelas, fontes em tamanho adequado, ilustrações e boa disposição de conteúdo. Confesso que me apaixonei instantaneamente, até mesmo antes de iniciar a leitura. A arte da capa e contracapa é maravilhosa, chamativa do jeito certo e em total harmonia com o enredo do livro. As medidas do livro são 13x20 e as margens são bem largas, fazendo com que a leitura seja extremamente rápida.

Eu Sou a Lenda já foi adaptado 3 vezes para o cinema – em 1964, 1971 e 2007 – sendo o último mais conhecido, contando com o ator Will Smith interpretando o papel do protagonista Robert Neville.



❝ Por que você deve ler
Em um mundo de horror monótono não podia haver salvação, nem nos sonhos mais loucos.

Se o fato de que Eu Sou a Lenda é a representação de um dos maiores romances de horror do século XX não for suficiente para lhe aguçar a curiosidade quanto sua leitura, nós estaremos aptos para lhe oferecer mais alguns; para os amantes das obras de horror, temos aqui uma verdadeira magnum opus em relação às outras obras do gênero, de forma que sua leitura é uma verdadeira introdução a todo e qualquer outro material que você possa ler posteriormente. Se pudéssemos construir uma árvore genealógica das produções mundiais de horror, certamente Eu Sou a Lenda faria parte de suas raízes mais profundas.

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Escrita em 1954 por um homem comum que se encontrava diante de severas dificuldades financeiras e pessoais, a criação se espelha em seu criador e retrata de forma agonizante a resignação de um personagem perante situações desesperadoras que ele não pode mudar e que fogem de seu controle – em sua maioria, retratadas pela sobrevivência noturna aos ataques de vampiros e convivência com seus fantasmas internos representados pelas lembranças de tudo o que pandemia tirou dele. Elementos como melancolia, solidão e desespero são retratros com maestria e de forma quase claustrofóbica, uma vez que o leitor não tem nenhuma outra opção a não ser ficar trancafiado com Robert Neville em sua residência até o final da narrativa, como dois ratos presos em seus buracos na parede, escondendo-se dos gatos famintos que espreitam lá fora. Esta é a história de um homem que se adequou às suas possibilidades da maneira que pôde, e usufruiu do que tinha próximo de si para não enlouquecer – bebida, sono, esperança – e que chega até mesmo a esquecer como é o som da própria voz após anos a fio sem ter com quem falar. Não é fácil ser o último homem da Terra, e esta é uma possibilidae utópica (ou não, quem pode dizer?) que insere o leitor na posição de observador de uma realidade paralela e que permite a abertura de novas possibilidades para as produções de horror, focando-se em histórias modernizadas, utilizando-se de cenários urbanos e colocando a questão pós-apocalíptica mais próxima possível da realidade. Ao mesmo tempo em que você possui total consciência de que está lendo uma narrativa que envolve uma questão científica FICCIONAL, algo dentro de você ainda pulsa, trazendo aquela faísca de realidade para a ficção e faz sua mente se perguntar como seria se, numa questão hipótetica, algo do tipo pudesse ter a chance de acontecer aqui e agora. Na verdade, nada no livro é 100% sobrenatural, uma vez que Neville é o retrato mais fiel de um ser humano, um homem com um passado, uma família, lembranças latentes e as conhecidas inclinações humanas para o pecado e os vícios – o que aumenta ainda mais a hipotética veracidade da ficção literária. A questão é que até mesmo os vampiros não podem ser considerados uma criação mitológica, pois, segundo o livro, são frutos de uma pandemia bacteriológica. E as bactérias existem e mutam-se o tempo todo, não é mesmo? E é aí que mora a origem de todos os medos humanos: você não se incomodaria em ler uma história com vampiros personificados como criaturas lendárias e mitológicas, mas e se... os vampiros fossem homens e mulheres como você?

É por essa e outras que Richard Matheson é considerado um dos autores mais conceituados do horror clássico: ele realmente sabe onde se escondem os maiores medos e fraquezas humanas.



❝ Preste atenção
Na vitrola, a música tocava. Lá fora, os vampiros esperavam.

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É muito provável que você já tenha assistido ao filme Eu Sou a Lenda, uma produção de 2007 protagonizada pelo ator Will Smith. Caso a resposta seja de fato afirmativa, eu já adianto: você irá se surpreender com as incontáveis diferenças encontradas entre as duas produções. As duas obras – literária e cinematográfica – são completamente dissemelhantes, seja nas pequenas coisas (como em nomes de personagens que se alteram), seja em aspectos mais importantes (como cenas do livro que acontecem de forma diferente no filme). Caso você não tenha assistido ao filme, eu recomendo: permaneça sem assistir até poder ler o livro.
Eu considero o livro tão maravilhoso e o filme tão infiel, que certamente poderia aconselhar que sua experiência com a primeira obra (a melhor, em minha opinião) poderia ser comprometida. Leia o livro, depois assista ao filme, e aí sim, tire suas conclusões finais.



❝ Meu toque pessoal
A força de um vampiro é que ninguém irá acreditar que ele existe.

Eu  Sou a Lenda é um dos maiores presentes oferecidos aos admiradores de horror clássico!
Particularmente sou daquelas pessoas fãs do horror de raíz mesmo, das histórias creepy do início do século XX, dos filmes em preto-e-branco, que vibram com produções como Nosferatu e Das Cabinet des Dr. Caligari, das criaturas cruas e desprovidas de maquiagens, que nos ganhavam pela sua própria essência sombria. A obra em questão é uma representação fiel desse tipo de produção, que não se desvirtua do conceito do horror secular promovido desde as primeiras obras góticas e que serão um prato cheio para todos aqueles que também se interessam pelos primórdios do gênero. Terminei a leitura com aquela mensagem ecoando na minha mente de que “as definições de boa leitura foram atualizadas”, sabendo que poucos são os livros que conseguem chegar ao nível de obras cânones e essenciais para o gênero como Eu Sou a Lenda. A experiência de morar sob o mesmo teto que Neville, a hipótese da ficção se tornar realidade, as indagações que a história lhe promove, os gritos dos vampiros ecoando no quintal todas as noites, tudo isso faz com que a narrativa em si seja perfeitamente construída, de forma que esta não seja uma ficção que apenas passe pela sua estante, mas sim, um livro que lhe marcará com um dos melhores de horror que você já leu.

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Para as pessoas que simpatizam, mas não conhecem tanto do gênero, simboliza uma excelente oportunidade de se ter contato com uma grande obra que ilustra bem o fantástico na literatura sombria, introduzindo-as em uma história que possivelmente moldará – pelo bem ou pelo mal – sua personalidade literária e gostos pessoais referentes a textos do gênero. E ainda há aquelas pessoas que nunca leram absolutamente nada de horror, para as quais Eu Sou a Lenda funciona ainda como um manual introdutório aos livros que marcaram um século de horror e que são uma das maiores representações do estilo de escrita gótico. Há suspense, há ironia, há desprezo pela própria vida, seguido de uma autopiedade dilacerante. Há horror, há ficção científica, há o registro de uma fé profunda seguida por uma desesperança que só se vai afogada em doses de uísque. Eu Sou a Lenda possui tudo, absolutamente tudo que um leitor de histórias sombrias, sufocantes e distópicas possa querer.

Ao ler o título pode-se pensar que o termo Lenda está referindo-se aos vampiros e todas as histórias criadas em torno deles... mas o único ser verdadeiramente lendário presente na narrativa, é Robert Neville.



❝ Curiosidade
Em questão de segundos, conectou os fatos.

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Quando estava lendo o livro, estava pensando comigo mesma o quão parecido aquele enredo era com algum outro livro que já tinha lido. Após fazer uma busca no meu google cerebral, associei a obra com A Noite dos Mortos-Vivos, cuja estrutura é bem parecida com Eu Sou a Lenda (exceto, claro, pelo fato de que aqui estamos falando de vampiros, e não zumbis). Mas de forma geral, tínhamos um ser humano escondendo-se desesperadamente de criaturas que estavam do lado de fora tentando aniquilá-lo ferozmente. Após uma rápido pesquisa, facilmente matei a dúvida e encontrei registros dizendo que a produção cinematográfica de George Romero fora inspirada no livro Eu Sou a Lenda, portanto... mistério solucionado!

O maior clássico de zumbis foi inspirado no maior clássico de vampiros.



❝ Considerações finais
"Eu sou a lenda."
- Robert Neville

Um livro que com toda certeza do mundo é um dos melhores de horror. Leia se você gostar do gênero, leia se você não gostar, leia se você estiver curioso, mas só leia. Essa é uma daquelas obras que você simplesmente precisa conhecer, seja pra você amar e teorizar com seus amigos, seja pra você dizer que leu e poder ter uma opinião formada sobre o gênero. Se houvesse uma lista oficial de livros representantes de cada gênero literário, Eu Sou a Lenda certamente estaria entre os cinco primeiros da lista.

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Iniciar a jornada com Neville nesse cenário pós-apocalíptico não é apenas mais uma aventura a ser lida; é a prova de que estar imune às maiores desgraças do mundo não é a certeza de uma bênção.

Para Neville, sua casa era uma prisão. E sua sobrevivência, um castigo.
E nós? Nós somos apenas mais alguns corpos perdidos pelo mundo que a pandemia ainda não conseguiu infectar. Mas esta... é apenas uma questão de tempo.

Nós somos a lenda.

17 comentários:

  1. Oii! Me apaixonei por esse livro!! A resenha está muito boa, gostei muito das imagens :D Post grande em.. haha
    Beijos ❤
    JP

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  2. Oi, Débora.
    Essa edição ficou tão linda, queria só para minha estante ficar mais bonita rs.
    Tenho um problema sério quando assisto o filme primeiro simplesmente não consigo ler o livro e infelizmente assisti o filme.
    Beijo

    Te Conto Poesia ♥

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  3. Oi Débora!

    Eu sou a lenda é um dos meus livros preferidos! Eu amei a narrativa e essa edição da Aleph está sensacional! É um excelente dica <3


    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  4. Esse livro deixa qualquer um de boca aberta e claro hipnotizado... Quero muito ler! Demais sua resenha.

    Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

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  5. Que capa linda!
    Eu tenho esse livro tem mais de um ano aqui, tinha até me esquecido até vir aqui.
    Mas a minha capa é brochura e feia em relação a essa rs
    Que bom que vc gostou, só não entendo muito bem vc associar a "A noite dos Mortos Vivos rs
    Sua resenha me deu vontade de pegar meu exemplar feinho mesmo! rs
    Bjs

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  6. Primeiramente tenho que falar da sua resenha, ficou muito boa, muito boa mesmo!!!
    Bom, confesso que esse gênero nunca me atraiu em livros, mas em filmes eu adoro, então acho que vou pegar a dica para assistir o filme rsrs
    Beijos

    http://blog-myselfhere.blogspot.com.br/

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  7. Oiii Débora, tudo bem?
    Que livro mais lindo menina, realmente adoraria mesmo ter a oportunidade de realizar a leitura, a edição está linda mesmo, com essa capa rosa. Dica super anotada.
    Abraços

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  8. Olá,
    Adorei conhecer um pouco mais.
    Sou apaixonada por filmes do Will Smith e a pouco tempo descobri que o filme do qual ele protagonizou e de mesmo título havia sido baseado no livro.
    Ainda não tive oportunidade de ler, mas tenho certeza de que se gostei do filme, com certeza irei amar o livro, até porque a edição está maravilhosa.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  9. Olá, tudo bem?

    Esse livro é fantástico, adorei, gostei muito, é espetacular..não tenho mais palavras! Rssss
    A sua resenha ficou muito boa e o livro difere em muito do filme, que em princípio é bom, mas se comparando com o livro, é bem ruim!
    Bjus

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  10. Adorei a resenha, já vou adicionar o livro na lista para comprar ^^
    beijos
    http://bellapagina.blogspot.com.br/

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  11. Oi, a resenha está muito boa, bem detalhista e estruturada, o que despertou o meu interesse em ler e saber mais da historia do personagem e sua jornada até ele encontrar outro humano vivo e como isso se desenrola. Dica anotada.
    bjus

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  12. Oie, tudo bem? Eu não sabia que Eu sou a lenda tinha livro, tampouco sabia das outras versões cinematográficas... Mas fiquei curiosa agora. Conheço a obra apenas com o Will Smith e acho genial!

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  13. Já iniciei a leitura, mas parei por sabe-se-lá que motivo. Acredita que eu nunca assisti o filme? Nenhum deles inclusive haha. Vou tentar retomar porque acredito que vá ser um livro que eu vou gostar bastante.
    www.belapsicose.com

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  14. UAU!!!!
    Que postagem mais que perfeita!!!!
    Eu não curto livros de terror, mas esse com certeza está na minha lista. Principalmente os quadrinhos - que já ouvi muitos elogios.
    Sua resenha me deixou mais do que empolgada em ler o livro, ainda mais com tantos detalhes e tantas coisas boas que ele parece ter. E que legal ele ter inspirado Noite dos Mortos Vivos, deixa tudo ainda mais interessante :)
    Parabéns pela ótima postagem!!!
    Beijinhos,
    Lica
    Amores e Livros

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  15. Oie
    eu tenho o livro e fiquei apaixonada pela edição, esta linda e quero muito ler em breve, nunca vi o filme pois falam que é bem ruim

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  16. OLá,
    Nunca vi o filme. Acho que nunca me interessei mesmo.
    O livro está bem bonito mesmo, aliás seria mais interessante ler do que ver o filme.

    http://euinsisto.com.br

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