14 de outubro de 2016

Livro ou Filme? » A Noite dos Mortos-Vivos


Muitas são as formas de aniquilação da sociedade humana exploradas em clássicos arrepiantes do horror, mas nenhuma delas talvez seja tão aterrorizante e surreal quanto um ataque zumbi, que explora um mundo em que os mortos retornariam à vida em seus corpos apodrecidos procurando corações pulsantes que estejam aguardando seu trágico fim: serem devorados. Se essas histórias fazem a sua cabeça e mexem com a sua imaginação, então certamente você está pronto para embarcar comigo na análise de uma obra de zumbis que foi a responsável pelo nascimento de todas as outras que você conhece hoje em dia: A Noite dos Mortos-Vivos! Filme e livro foram lançados retratando esse universo, mas qual será o mais assustador? Pegue suas armas e bloqueie todas as saídas: a pandemia já vai começar.




❝ O enredo da história

A história se inicia com os irmãos Barbara e Johnny dirigindo-se para um cemitério, a fim de visitar o túmulo do pai e prestar uma homenagem ofertando à sepultura algumas flores. Neste momento, Johnny avista uma figura humanóide se aproximando lentamente e aproveita para assustar a irmã ativando memórias do seu passado e dizendo algumas das frases mais célebres do cinema, como por exemplo "they’re coming to get you" (eles estão vindo pegar você). O que inicialmente era uma brincadeira se transforma em um pesadelo quando a criatura de olhar frio e andar desengonçado repentinamente ataca Barbara. Johnny inicia então uma luta corporal com o estranho ser, e para o desespero da garota, seu irmão perde a batalha do pior jeito possível: sendo devorado. A partir daí, Barbara percebe que aquele não era um homem comum e que sua vida está correndo sério perigo; inicia então uma fuga desenfreada que só tem fim ao encontrar uma casa abandonada, na qual encontra um abrigo temporário. Só que ela não será a única pessoa a encontrar naquela residência um refúgio, e se reunirá com mais cinco pessoas tão desesperadas quanto ela para compartilharem seus medos e agonias. Com os zumbis tomando conta da área externa da casa e as ideias para adiar o encontro terrível com os mortos-vivos se esgotando, só resta uma certeza latente na mente de cada um desses sobreviventes: a de que a morte está cada vez mais perto.




❝ Visão geral


O livro (confira a resenha aqui) foi escrito por John Russo (escritor, roteirista e diretor que participou ativamente da produção do filme e até atuou nele como um dos zumbis) e lançado pela primeira vez em 1974 nos Estados Unidos como uma adaptação literária do filme A Noite dos Mortos-Vivos. Até o ano de 2014 era uma obra completamente desconhecida para o público brasileiro, sendo finalmente lançada por aqui pela editora DarkSide, em duas edições distintas: uma comum, em brochura, e outra edição de luxo, em capa dura. O lançamento da obra literária foi em comemoração aos 45 anos do lançamento do filme, o que ressalta ainda mais o seu valor na cultura pop. Vindo em boa hora, funcionou como uma excelente contribuição para um público que atualmente é carente de grandes clássicos do terror lançados em livro, matando a saudade dos leitores de longa data do gênero de horror e inserindo novos leitores à um tipo de história que nem sempre possui grande divulgação, a não ser para um público mais específico. A Noite dos Mortos-Vivos lançado em livro, apesar de ser uma publicação jovem, deixou sua marca na literatura zumbi e de terror, provando que este ainda é um tipo de entretenimento que cativa as pessoas pelo medo.



O filme foi lançado de forma independente em 1968 e dirigido por George Romero (diretor pioneiro na produção de obras cinematográficas de zumbis). O preto-e-branco característico da época garante logo no início um clima extremamente soturno para o longa, que será ainda mais carregado de densidade com o passar dos minutos. Com duração de 96 minutos, a produção trabalhou com um orçamento inicial de $114.000 (um orçamento baixíssimo, convenhamos), que ao final do trabalho (considerando aproximadamente uma década depois) gerou uma receita somada de $30.000.000!

A Noite dos Mortos-Vivos não foi o primeiro filme de zumbi produzido, mas seu impacto na sociedade faz com que esta seja a impressão que fica para o espectador. Ao ser lançado, lá no final dos anos 60, o longa enfrentou uma recepção desastrosa da crítica, que o acusou de propagar temas como satanismo e valores antirreligiosos. Um dos motivos pelo qual o filme foi lançado de forma independente foi a polêmica travada com a maioria das distribuidoras, que concordava em produzir o filme com a condição de que as cenas mais violentas fossem retiradas do longa e o final fosse modificado. Como essas exigências não faziam o menor sentido para Romero e Russo, ambos seguiram com o projeto inicial e nada foi mudado.




❝ Fidelidade


Contando que o escritor do livro, John Russo, foi também o co-roteirista do filme, já era de se esperar que a adaptação fosse da melhor qualidade. São raros os casos em que um profissional que participou ativamente do livro se envolva com a produção de um filme adaptado da mesma obra, e vice-versa; no caso de A Noite dos Mortos-Vivos, a participação de Russo em ambas das produções fez toda a diferença na hora de obter o resultado final, em que as duas obras encontram-se perfeitamente alinhadas. A sequência das cenas do filme são fielmente respeitadas no livro, assim como o destino de cada personagem e o desfecho da história. Se o livro possui modificações, as mesmas não se encontram no enredo, mas sim na forma como a história é apresentada – como já mencionei, de forma mais intensa e sanguinária. Mesmo o filme sofrendo muita censura na época, ainda assim fora mantida a essência pretendida desde o início por Russo e Romero, e continuada com brilhantismo através das páginas do livro. Não encontrei nenhuma divergência significativa entre as duas obras, o que me faz pensar que uma completa a outra ao seu modo e agrada um público específico de acordo com suas preferências.




❝ A emoção


O êxtase e o desespero que transparecem na obra literária são indiscutíveis, o que me leva a crer que John Russo de fato explorou o máximo de sua capacidade criativa remanescente da produção do filme e a transportou inteiramente para o livro. O filme possui poucos diálogos – talvez por eles não serem exatamente o foco da produção, mas sim o impacto visual causado pelos zumbis propriamente ditos -, o que faz com que todo o terror da produção seja passado unicamente através das imagens reproduzidas. Isso por si só pode ter sido suficiente na época, mas hoje em dia, creio que seja um pouco mais difícil assustar as pessoas apenas com o conteúdo apresentado pelo filme, considerado “leve” se comparado com as produções de terror atuais, até mesmo de zumbis. A linguagem utilizada no livro é mais pesada, mais vigorosa e intensa; alguns palavrões e inúmeras descrições sanguinárias possuem presença garantida nas páginas, fazendo com que o leitor consiga se envolver ainda mais na atmosfera doentia causada pela epidemia zumbi. O livro por si só já proporciona que o leitor desenvolva a história em seu ritmo, utilizando-se amplamente de suas capacidades imaginativas, e talvez este seja o motivo pelo qual o livro consegue ser tão envolvente: você possui total liberdade para imaginar de forma muito mais intensa tudo aquilo que, ao assistir o filme, você percebe que faltou. Em termos de susto, o livro me prendeu de forma absurda, seja pela sua linguagem mais explícita ou pela descrição mais detalhada dos acontecimentos. O clima é de extrema tensão em ambos, o que no filme ganha destaque principalmente pela palidez do preto-e-branco e da ausência de longos diálogos.



Quer um conselho? Se você tem estômago forte, quer ser surpreendido de verdade e experimentar toda essa liberdade imaginativa que tanto escrevo, leiam primeiro o livro. Acredito que se tivesse lido o livro após ter assistido o filme, a minha experiência certamente não seria a mesma e poderia até ser empobrecida, pois apesar do livro oferecer muito mais liberdade para o leitor, eu não estaria apta para aproveitá-la por já ter formulado uma opinião específica adventa do filme. Mas como em tudo o que escrevo aqui, esta é uma opinião pessoal; quando o assunto é terror, eu curto mais quando o enredo é exposto de forma mais intensa e explícita, é questão de gosto mesmo. Para mim, se não for assim, o terror deixa de ser terror para se tornar apenas um suspense. Na verdade, há poucas cenas no filme que conseguiram me surpreender de verdade a ponto de considerá-lo como um filme de terror. Posso destacar as cenas em que Barbara está na casa, sobe as escadas e se depara com... algo (sem spoiler, garotada), e também as cenas em que os zumbis são focalizados alimentando-se dos corpos que tiveram a infelicidade de cruzar seus caminhos. Ainda assim, essas cenas são fichinha perto de tudo o que você consegue imaginar com as descrições de Russo enquanto está lendo o livro. Portanto, se você é como eu, que gosta de um terror mais terrorífico, sem dúvidas leia o livro (sério, leia AGORA). Já você, que prefere algo não tão explícito e com uma linguagem mais limpa, assista ao filme. Tem zumbis (eles nem são tão feios não), tem algumas cenas que dão agonia, tem um enredo extasiante, mas nada que não seja de se esperar num filme do gênero produzido no final dos anos 60.




❝ Reconhecimento



Em  termos gerais, é praticamente ilógico comparar fatores como desempenho e reconhecimento do filme com o livro, pelo menos aqui no Brasil. O livro fica com uma extrema desvantagem justamente por só ter sido publicado por aqui em 2014 (apesar da obra original ter sido escrita há muito mais tempo), de forma que uma obra literária adaptada do filme era completamente desconhecida para a grande maioria, exceto por grandes fãs do filme que tomaram conhecimento do livro após pesquisarem um pouco sobre a história da obra e/ou do roteirista John Russo. Provavelmente, o livro pôde ter um espaço maior nos Estados Unidos e Europa, mas por aqui, tivemos que nos contentar unicamente com o filme.
Além do mais, precisamos destacar a importância do filme na cultura pop mundial, que revolucionou as obras de terror e zumbis. A maioria de filmes do gênero foi influenciada por esta obra, que não só direcionou todas as produções que vieram a seguir, como também praticamente lançou um guia de comportamento zumbi, de forma que muito do que se é imaginado hoje, nasceu com os ideais espalhados pelo filme. Hoje, quase 50 anos após seu lançamento, podemos dizer com certeza que este não foi apenas mais um longa de terror, mas sim, um verdadeiro influenciador de toda uma geração dedicada ao terror e à cultura zumbi. É por essas e outras que o filme ganhou muito mais reconhecimento por parte da mídia e da sociedade, e se tornou peça tão importante na inspiração de todos os outros longas do mesmo gênero que vieram após ele.




❝ Curiosidades

» Os cenários utilizados foram mínimos, sendo em sua maioria um cemitério (do início do filme) e duas casas, simbolizando respectivamente o refúgio dos protagonistas e o porão.

» Presunto assado foi utilizado para simular a carnificina que acontecia quando um corpo era atirado aos zumbis e sua carne, devorada.

» Marilyn Eastman, que no filme interpretou a personagem Helen, também era responsável por supervisionar os efeitos especiais, figurino e maquiagem.




❝ Conclusão

Que me desculpem os cinéfilos e amantes dos cults mundo afora, mas quem vence essa disputa em minha opinião é o livro. De forma alguma menosprezo o valor cultural do filme e agradeço aos deuses zumbis por ele ter existido para servir de inspiração para tantas outras obras de terror que estariam por vir, mas nada irá se comparar à emoção que senti enquanto lia as páginas da adaptação literária. O coração chegava até a bater mais rápido, tamanho suspense com que as palavras de Russo foram dispostas no papel. Recomendo ambas das produções a todos os amantes do terror, mas se eu fosse eleger um preferido, aquele que me fez ficar grudadinha nele até o seu fim, certamente o felizardo seria o livro.



E vocês, o que acham de A Noite dos Mortos-Vivos? Já assistiram o filme ou leram o livro? Qual é o seu preferido? Ficou com medinho? Conta pra gente antes que eles nos encontrem!

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