28 de outubro de 2016

Artigo » A evolução da literatura sombria


É fato irrefutável que a literatura fantástica e de terror sofreu e ainda sofre imensas e irreversíveis transformações desde que começou a tomar forma com mais personalidade, aproximadamente no século XVIII; com isso, não queremos necessariamente dizer que a literatura sombria que temos hoje é melhor ou pior do que a do passado, mas sim, apenas diferente. A sociedade mudou, o pensamento das pessoas mudou, logo, a demanda por livros do gênero também se transformou drasticamente. No post de hoje, iremos traçar uma linha do tempo da produção literária sombria, demarcando as principais características de cada época e suas obras mais significativas. Que comecem os trabalhos!






O terror, o horror e o gore

Desde sempre, o homem literalmente sentiu necessidade de sentir o medo. Por causa disso, trabalhou durante séculos a fio em produções cada vez mais assombrosas, dando vida à criaturas sugadoras de sangue, devoradoras de cérebros, invocadoras de demônios e pontes de comunicações entre o lado de lá. Qualquer elemento era suficiente para alimentar o imaginário de anciãos solitários ou jovens soturnos que uniam-se madrugadas afora para criar histórias cada vez mais dilacerantes e intensas. De qualquer modo, é importante ressaltarmos que a literatura tenebrosa pode ser dividida em dois aspectos principais, que diferem-se bastante em relação à sua produção: as obras de Terror (em que o livro busca prender o leitor através de sua própria ansiedade e imaginação) e as obras de Horror (em que o livro busca prender o leitor pelas suas experiências sensoriais e intensidade). Em resumo, podemos dizer que as obras de terror fornecem mais abertura para o leitor sentir-se apreensivo durante a leitura, como naquele momento em que Marion está tomando sua ducha em Psicose, e você simplesmente sabe que tem alguém atrás dela; sabe que algo acontecerá ali. O terror não está necessariamente ligado à algo sobrenatural, mas principalmente a coisas tangíveis, em sua maioria relacionadas à própria psicologia humana. Nem sempre você sairá de um livro de terror verdadeiramente morto de medo, talvez, apenas perturbado ou assustado. Já nas obras de horror, o leitor já fica mais sucetível a elementos sobrenaturais e circunstâncias que independem de suas faculdades mentais para serem analisadas; que estão fora da sua compreensão. Não é somente o aspecto psicológico que assusta, mas também os elementos que já são entregues prontos para o leitor e que pareceriam inimagináveis se não estivessem acontecendo naquele momento. Um exemplo de literatura de horror consiste no desespero entre os refugiados em A Noite dos Mortos-Vivos, que estavam assistindo a si próprios cada vez mais perto da morte após a invasão dos zumbis comedores de cérebros.

Por fim, ainda há uma subdivisão que podemos citar dentre as produção sombrias, que caracteriza-se pela temática Gore. Obras produzidas com toques de gore possuem a intenção de chocar e prender o leitor através de uma violência que beira o bizarro, de forma que as cenas são quase sempre muito detalhadas e despudoradas. É aquela obra que você lê e sente náuseas, perguntando-se frequentemente o porquê de alguém ter dedicado horas preciosas da sua vida naquela produção. Mas a questão é que há muita gente que gosta disso, e talvez esta seja a razão dela ainda existir. Aí meu amigo, é tripa saindo pelo ouvido e sangue jorrando pra todo lado.


Agora que já sabemos um pouco mais sobre os livros de terror e os de horror, vamos conhecer brevemente as produções sombrias de um modo mais cronológico:



Século XVIII
Uma curiosidade mórbida

Imagem: Castelos medievais por FPesantez
Foi no final do século XVIII que os autores começaram a se despreender, mesmo que de forma tímida, das amarras da realidade. O desenvolvimento de uma nova corrente de pensamento se deu em passos lentos, uma vez que o Iluminismo ainda ditava as regras do jogo, fazendo da razão e da ciência os pilares principais da construção da sociedade e da filosofia. Ainda assim, o autor Horace Walpole encontrou energia criativa para ir contra a maré e produzir o primeiro livro considerado marco do início da literatura gótica: O Castelo de Otranto(1764), um romance que mesclava elementos sobrenaturais e fantasmagóricos com intrigas e conflitos psicológicos dos personagens. A oposição por obras do gênero era tão forte que O Castelo de Otranto foi publicado pela primeira vez de forma disfarçada, como sendo um romance italiano medieval. Mesmo com tudo para dar errado, a obra foi a inspiração inicial para tantas outras que viriam na mesma época, como Vathek (Matthew Beckford, 1797), O Italiano (Ann Radcliffe, 1796) e O Monge (Matthew Lewis, 1797). Em quase todas as produções, as cenas aconteciam em grandes castelos medievais, com a presença de cavaleiros fortes e valentes, elementos religiosos e aplicação do mistério como toque principal da história. Grande parte dessas histórias eram escritas por mulheres, que se personificavam através de personagens femininas exiladas em castelos.

No Brasil, ainda não haviam sinais de uma revolução literária como na Europa já estava acontecendo, uma vez que praticamente todas as produções eram voltadas para a situação do Brasil colonial, escritas seguindo o modelo pastoral. Muitos escritores da época até mesmo foram exilados pelos trabalhos que produziram na época, todos contagiados pela revolta característica contra o poder colonial. As primeiras expressões diferenciadas produzidas em território brasileiro aconteceriam apenas no século seguinte, com o surgimento do Romantismo. Enquanto isso, os escritores europeus continuavam avançando, numa escrita cada vez mais despreendida de lógica e tomada pela emoção e pelos seus fantasmas interiores que insistiam em vir à tona a cada novo parágrafo escrito.



Século XIX
O despertar da escuridão

Imagem: Edgar Allan Poe, por TwistedSynapses
Foi a partir do século XIX que tanto no Europa, quanto no Brasil, a literatura sombria começou a tomar forma e ganhar uma identidade mais concreta. Este foi o século do despontar do Romantismo, caracterizado pelo estilo de escrita emocional, mórbido e que se abstém da realidade nua e crua. O objetivo dessa nova corrente de pensamento era conquistar principalmente os jovens, que estavam cada vez mais distantes dos valores clássicos e propensos a valorizar de forma mais intensa as produções criadas através da emoção, ao invés da razão. A liberdade era uma das palavras-chave para as produções poéticas, de forma que o sentimento por si só prevalecesse e fosse o artista principal da obra, sem tanta fixação em questões como métrica e rima; ao invés disso, se tornaram protagonistas das obras a exploração psicológica dos personagens, a fuga da realidade e a imposição do medo e curiosidade por parte de fenômenos sobrenaturais, ou ainda a personificação de criaturas mitológicas e fantásticas. É aí também que temos oportunidade de falar sobre outro item importante na produção literária da época, chamada Ultrarromantismo. Também conhecido como Mal-do-Século, o ultrarromantismo é caracterizado por todas esses valores citados, além do sentimentalismo exacerbado, a melancolia, o pessimismo, o erotismo, o individualismo, a admiração pela morte e a idealização da mulher.

Foi justamente neste século que surgiram obras consideradas grandes marcos da literatura de terror, consagradas amplamente até hoje por todos os admiradores do gênero; Frankenstein (Mary Shelley, 1818), O Médico e o Monstro (Robert Louis Stevenson, 1886), Drácula (Bram Stocker, 1897), Carmilla (Sheridan Le Fanu, 1872) e as primeiras produções de Edgar Allan Poe. É nessa mesma época também que um dos maiores representantes da literatura sombria apresenta seus trabalhos ao mundo: Lord Byron. A maior parte dos romances contavam com uma atmosfera sombria por si só, de modo que a própria ambientação já era um prelúdio ao medo; cenas noturnas, misticismo, sarcasmo, domínio de artes ocultas e satanismo eram alguns dos elementos mais controversos que poderíamos encontrar nas obras representadas. Elementos da natureza também dão o último toque a obra, que são guiadas por luares esplêndidos, mares revoltos e céus estrelados.

No Brasil, as produções românticas tiveram 3 fases distintas, sendo a segunda de maior interesse do nosso artigo, representada fielmente por Álvares de Azevedo. O jovem poeta descrevia como ninguém as ânsias vividas por homens atormentados pelo amor de belas e puras mulheres ou tentados mentalmente através da figura do Diabo, que a propósito é o personagem principal da obra Macário, publicada postumamente em 1852. Ainda há outros nomes de poetas considerados “malditos”, como Fagundes Varela e Casimiro de Abreu, mas Álvares ainda prevalece como sendo o poeta que melhor explorou o conceito do sombrio. Infelizmente, grande parte desses autores morriam muito jovens, frequentemente devido à tuberculose, sem oportunidade de deixar um número muito extenso de obras.



Século XX
O amadurecimento

Imagem: Cthulhu, por CorporalPhantom
Nos anos 90, o terror definitivamente deixou de ser um gênero reservado para se tornar conhecido e adorado por um grande número de pessoas. Havia trabalhos em formato de quadrinhos, livros físicos, contos curtos, isso sem contar a intensa utilização do gênero em produções cinematográficas. Podemos até mesmo dizer que foi neste século que o horror (diferente de terror, lembram-se?) atingiu o seu ápice, com o lançamento de obras como A Noite dos Mortos-Vivos (John Russo, 1974), Entrevista Com o Vampiro (Anne Rice, 1976) e os mitos de Cthulhu, idealizado por H.P. Lovecraft. Muito mais maduro, o horror do século XX estava pronto para conquistar um espaço efetivo nas prateleiras do mundo todo. Essa efervescência começou através de pequenas revistas publicadas na Europa com histórias aterrorizantes – revistas estas que, a propósito, iniciaram o próprio H.P. Lovecraft no mundo na literatura -, servindo de berço para seus primeiros contos serem publicados. Muitas vezes, essas revistas eram despidas de censura e por esse motivo, carregadas de sangue jorrando nos quadrinhos e tudo mais o que seus admiradores eram capazes de imaginar, mas eram impedidos de assistir nas telas dos cinemas. É interessantíssimo destacar que, apesar de as vezes os filmes possuírem maior destaque e público, quase sempre descobrimos uma grande obra literária por trás de um filme ou simplesmente da inspiração para o mesmo ser realizado. Os livros foram essenciais no século por dois motivos principais: para dar continuidade à cultura do terror/horror e para influenciar diretamente os autores que viriam a seguir, e que hoje podemos chamar de grandes profissionais das letras sombrias. E é sobre esses mestres que iremos falar agora.



A Contemporaneidade

Imagem: Stephen King, por DylanPierpont
Podemos dividir os autores de terror lidos na atualidade através de duas linhas de pensamento; a primeira refere-se aos autores “imortais” que já faleceram ou iniciaram-se em outros projetos, através daqueles livros que lemos em 2016, mas seu lançamento se deu há anos e mais anos atrás, e a segunda está relacionada aos novos talentos da literatura que estão surgindo para dar segmento ao gênero tricentenário. Hoje em dia a busca pela literatura sombria está bem miscigenada, de forma que conseguimos encontrar pessoas que curtem um terror psicológico bem estruturado, assim como também há aquelas outras fãs de gore e horror, com pedaços de corpos voando por todos os lados, numa violência puramente gratuita. Falando de modo geral, podemos destacar como autores mais lidos na atualidade Stephen King (editora Suma de Letras), Robert Kirkman (The Walking Dead, editora Record) e Joe Hill (A Estrada da Noite, editora Arqueiro), além dos nacionais André Vianco (Os Sete, editora Aleph), Raphael Montes (O Vilarejo, editora Suma de Letras), Fábio Yabu (Branca dos Mortos e os Sete Zumbis, editora Globo), entre muitos e muitos outros. (Esqueci do seu autor especial? Comenta aí embaixo! :D)

A forma de se fazer literatura sombria mudou, assim como também mudou o gosto de seus leitores; o que importa verdadeiramente é que todo esse processo por qual a produção literária de terror/horror passou ficou e ficará marcada para sempre, de forma que cada época nos trouxe algo novo e maravilhoso para ser experimentado e sentido!

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