30 de outubro de 2015

Artigo » A literatura de horror e seu falso conceito intrínseco de maldade


A história que vou contar é verídica, apesar de eu mesma não querer acreditar que pudesse ter acontecido. Dia desses eu estava indo trabalhar, e ao tomar meu lugar no ônibus tirei da bolsa o livro que estava lendo na semana, que no caso era A Noite dos Mortos Vivos, brilhante adaptação literária de John Russo do filme de mesmo nome dirigido pelo mestre dos filmes de zumbis, George Romero. Li esse livro em três dias (maravilhoso, aliás), logo, repeti esse processo de lê-lo no ônibus por três vezes. Notei que durante esses três dias, as reações das pessoas que por infelicidade do destino sentaram-se ao meu lado foram as mais diversas possíveis quando me viram tirar o livro da bolsa, e consequentemente, se depararam com o título "macabro". No primeiro dia, uma jovem me olhou assustada e ficou inquieta em seu banco até o ônibus chegar ao ponto em que ela desceria (que até hoje eu ainda não tenho certeza se era mesmo o ponto em que ela gostaria de ter descido desde o início). No segundo dia, um rapaz mudou-se para outro lugar vago, distante do meu. E finalmente, no terceiro dia, no exato momento em que tirei meu livro da bolsa, a senhora que estava sentada ao meu lado também fez o mesmo movimento e tirou também um livro de sua própria bolsa: a Bíblia Sagrada. Mas agora eu lhe pergunto: o que me difere de alguém por eu carregar em minha bolsa um livro de terror, e essa pessoa carregar na sua uma Bíblia?

Seria eu a personificação do "mal"?


Na verdade, eu me divirto muito pensando comigo mesma a respeito do que aquelas pessoas que sentaram ao meu lado pensaram de mim. Será que pensaram que eu era uma pessoa com transtornos espirituais? Que eu tinha um "encosto"? Que eu era uma ameaça para a sociedade? Praticaria eu rituais satânicos nas horas vagas? Ou pertenceria ao lado negro da força? Ah, são tantas opções! Chega a ser engraçado você perceber que a sociedade te julga descaradamente por tudo o que você faz, pensa, crê, e até lê. Por absolutamente tudo. Ao me ver com um livro cujo título era "A Noite dos Mortos Vivos", automaticamente minha figura foi associada à maldade, ao perigo. Mas afinal... o que é a maldade? Será que o mal realmente se enconde por trás de um livro de ficção? Afinal, o que seria  mesmo "o mal"?

O mal está por todos os lugares. O mal não espera mais dar meia-noite para dar as caras, o mal espreita à luz do dia. Deliberamente e descaradamente, ele tira vidas todos os dias e as pessoas acham isso normal. O mal está nos filhos que matam os próprios pais e nos homens que espancam suas próprias mulheres. As pessoas permitem que o mal entre em suas casas quando deixam a televisão ligada em noticiários sangrentos e sensacionalistas. O mal não mora dentro de um livro. O livro é a fuga para o mal. O mal mora dentro da cabeça e do coração de alguns seres humanos. O mal não estava na história sobre zumbis que eu li naquele dia. O mal estava mesmo nos olhares das pessoas que me julgaram por eu não ser politicamente correta e não me interessar pelo o que a sociedade considera bom, virtuoso ou sagrado.


O que leio nos livros são apenas histórias. O que vejo nos noticiários, é realidade.
E com isso, ninguém se incomoda?


Sou admiradora da literatura de horror desde a minha adolescência, quando no colégio conheci nomes como Álvares de Azevedo (que a propósito é meu escritor favorito até hoje), H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe. O desconhecido sempre me fascinou, e naquela época se tornou um refúgio para meus pensamentos introspectivos e meus ideais tão diferentes dos ideais das outras garotas da minha escola. Os melhores poemas que já escrevi até hoje refletem meus próprios mistérios, e são fortemente inspirados por esse tipo de literatura. O problema é que as pessoas temem aquilo que desconhecem, ao invés de se sentirem estimuladas a desvendarem seus próprios mistérios. E é exatamente isso que a literatura sombria propõe; ela instiga, inquieta. Nos permite entrar em nosso próprio inconsciente. Nos faz perder o medo enfrentando o próprio medo. Nos faz descobrir a tão almejada beleza naquilo que todos os outros desprezam, no desconhecido, no sobrenatural, nos mistérios da vida. Enxergando aquilo que ninguém mais consegue enxergar. Eu não tenho medo de zumbis, fantasmas, vampiros, demônios e outras supostas monstruosidades. Os monstros vivem todos aqui mesmo na Terra, e não se escondem em livros, em estilos musicais, ou no que quer que seja; se personificam na forma humana. Os demônios não se escondem mais debaixo da sua cama, mas caminham livremente por aí, assassinando os próprios pais, estuprando crianças, de terno e gravata, formulando nossas leis, controlando nossos passos. Para mim, esse é o conceito do mal. O conceito do tenebroso. O que realmente deve causar medo e desespero. Hoje em dia, as notícias que eu vejo na televisão me assustam mais do que qualquer clássico que eu poderia ler.

Ler livros de terror não faz de mim uma maníaca, uma assassina, uma sádica torturadora. O horror que está nos livros não tem metade da miséria que o mundo em que vivemos tem. As histórias nos livros são aventura, são dimensões, são universos. É algo que poucos poderão compreender, e que quando o fizerem, talvez - e só talvez! - poderão escapar por alguns momentos dessa realidade verdadeiramente maligna.

Da próxima vez, pense bem quem você deve temer e quem pode representar uma ameaça.
O mal pode estar muito mais próximo do que você imagina.

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